Apuros com um Beb

Laura Anthony

   

Ttulo Original: Baby Business (1997)

Resumo:
Quantos problemas um beb pode trazer?
O milionrio solteiro Clay Barton no demoraria muito para descobrir. Ansioso e sem saber o que fazer, ele procurara Tiffany Avery, a adorvel pediatra que trabalhava perto de sua casa, e ela instantaneamente resolvera seus problemas. Como poderia culpar sua pequena sobrinha? Clay tambm adoraria se jogar nos braos dela... Mas como Tiffany reagiria quando descobrisse que ele no era um pobre trabalhador em apuros, e sim um milionrio disfarado?


Digitalizadora: Nina
Revisora: Carina D.
Copyright  1997 by Laurie Blalock
Originalmente publicado em 1997 pela Silhouette Books, diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edio  publicada atravs de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
Silhouette, Silhouette Desire e colofao so marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.
Ttulo original: Baby Business
Traduo: Mrcia Gimenez
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10 andar CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil
Copyright para a lngua portuguesa: 1997 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Fotocomposio: Editora Nova Cultural Ltda. Impresso e acabamento: Grfica Crculo.
CAPTULO I
 Oh, Clay, aconteceu uma coisa terrvel!
 O que houve?  Clay Barton virou-se para encarar a irm caula, Anne, parada  porta do apartamento com Molly, a filha de nove meses, no colo. Rugas de preocupao marcavam o rosto plido da moa.
  a me de Holt.  Ela hesitou e respirou profundamente.  Vai fazer uma cirurgia de emergncia, e por isso teremos que tomar um avio hoje  tarde para ir at l. Vou pegar Holt no escritrio, mas no encontrei ningum para cuidar de Molly.
 Entre, por favor.
Clay segurou a irm pelo brao e conduziu-a para o interior do pequeno apartamento. Com uma das mos, retirou um cobertor que estava sobre o sof e fez com que ela se sentasse.
 No podemos levar Molly conosco. Ela est um pouco resfriada, e no vai ser possvel encontrar uma bab hoje.
Embora Holt e Anne tivessem dinheiro para contratar dez babs, Clay ficara satisfeito com o fato de a irm recusar-se a fazer isso, preferindo cuidar pessoalmente da educao da menina. Mas em um momento como aquele a deciso no parecia to sbia assim.
 Pena que papai e mame estejam no Japo  Clay murmurou, sentando-se tambm.
Anne meneou a cabea, desanimada.
 Se tudo no tivesse acontecido to inesperadamente, eu poderia ter contratado algum. E o pior  que vamos ter que ficar trs dias, ou mais, fora da cidade...
 Sinto muito pelo que aconteceu  me de Holt.
 Voc  minha nica esperana. Se pudesse cuidar de Molly apenas hoje, tenho certeza de que a agncia poder mandar uma bab amanh. E j que voc fica o dia todo em casa, imaginei que no seria um sacrifcio muito grande.
Sacrifcio? Mudana de estilo de vida talvez fosse uma definio melhor. Clay olhou para a linda sobrinha. A menina mexia-se sem parar, esticando as pernas e os braos. Ele segurou-lhe o queixo com os dedos e soltou um suspiro. Sem dvida, tomar conta de uma criana era uma coisa para a qual no estava muito bem preparado.
Mas como negar-se a ajudar a irm? Alm disso, seria apenas por um dia...
 No sei se vou conseguir  ele murmurou.
Anne suspirou.
Vou entender, se voc achar que estou pedindo muito. Acho que Holt no vai se importar em ir sozinho.
Clay sentiu um aperto no corao. Que diabos, j estava trabalhando em sua nova inveno h quatro anos! Por que um dia ou dois fariam diferena? Tratava-se de sua sobrinha. Podia aproveitar a experincia para o dia em que resolvesse se tornar pai.
 Eu vou conseguir.
 Oh, muito obrigada! Voc no sabe quanto isso significa para mim e para Holt.
 Ei, para que servem os irmos?  Ele brincou com o queixo da irm, olhando outra vez para a criana.  S espero que Molly e eu consigamos sobreviver...
 No seja tolo  Anne repreendeu-o carinhosamente.  Voc sempre foi maravilhoso com ela. Molly sorriu, como se concordasse com a me.  Eu trouxe roupas, mamadeira, chupetas e o andador. No sei se me esqueci de alguma coisa por causa da pressa... Sa to rpido de casa que acho que acabei me esquecendo de ligar o alarme.
 No se preocupe  Clay tranqilizou-a.  Vou cuidar de tudo isso.
 Escrevi uma lista dos cuidados dirios com Molly, e coloquei o nome do pediatra dela, caso acontea alguma coisa.  Retirou um pedao de papel da bolsa e passou-o a Clay.
Ainda aturdido por ter que assumir aquela responsabilidade, ele simplesmente assentiu. Olhou novamente para a sobrinha. A menina vestia uma roupinha cor-de-rosa e sorriu como um anjo. Bem, j ficara com ela no colo algumas vezes, no passado, mas nunca por mais de alguns minutos. O pensamento fez com que engolisse em seco.
 No se preocupe.  Anne segurou-o afetuosamente pelo brao, beijando-o no rosto.  Vai se sair muito bem. Confio completamente em voc.
 Ligue-me assim que chegar l  ele pediu.
 Claro que sim.  Anne abaixou a cabea e encarou a filha.  At logo, amorzinho. Seja uma boa menina com o tio Clay. Mame te ama, viu?  Em seguida, beijou a menina efusivamente.  Clay, voc  o melhor irmo do mundo.
Colocou a chave da prpria casa nas mos dele, que apanhou a menina no colo de forma um tanto desajeitada e acompanhou-a at a porta. Do outro lado da rua, estava estacionado o carro de luxo de Anne. Clay a ajudou a retirar as coisas de Molly do porta-malas, colocando-as na calada.
 Faa uma boa viagem.
Anne beijou os dois outra vez e entrou no carro. Em seguida colocou os culos escuros e ligou o motor. Clay no pde deixar de notar que a expresso da irm estava nitidamente preocupada. Ele e Molly ficaram ali, parados, at que o carro desaparecesse, duas esquinas adiante.
 Bem  ele finalmente murmurou , agora parece que somos s ns dois, querida.

Molly no parava de chorar.
Clay estava totalmente perdido. J no sabia o que fazer. Dera a mamadeira, tentara alimentar a menina e chegara a trocar as fraldas. Mas nada disso havia adiantado. Os gritos de Molly continuavam, deixando-o cada vez mais desesperado.
Depois de algum tempo, Clay admitiu que falhara. Obviamente algo estava errado. Precisava de ajuda profissional. Colocou a criana novamente no bero e procurou freneticamente, nas anotaes de Anne, o nmero do hospital onde a me de Holt estava internada.
Continuou falando calmamente com a menina enquanto discava. A telefonista atendeu e pediu alguns minutos para localizar Anne. Molly, por sua vez, no parecia nem um pouco comovida com os esforos do tio, pois continuava chorando cada vez mais alto.
Finalmente, a mulher voltou a atender, informando num tom profissional que no fora possvel localizar ningum na sala de espera.
Onde eles estavam? Ser que o vo atrasara? Ou a me de Holt j entrara na sala de cirurgia?
 Vamos l, Molly!  ele implorou ao desligar o telefone.  Pare com isso.
A menina o encarava com uma expresso desolada, o que fez Clay sentir-se culpado pela prpria impacincia. Talvez ela estivesse doente. Que pensamento terrvel! Subitamente, seus piores pesadelos vieram  tona. Concluiu que seria melhor ligar para o pediatra.
 Aqui  Clay Barton, e preciso marcar uma consulta para minha sobrinha, Molly Johnson  informou assim que a recepcionista do consultrio atendeu.  Agora. Hoje. Esta tarde.
 Sinto muito, sr. Barton, mas estamos com o horrio tomado. Creio que poderei marcar uma consulta para amanh pela manh.
 E eu vou ter que ouvir a menina chorar assim a noite toda? De jeito nenhum.  Para enfatizar o que dizia, aproximou o bocal do aparelho do rosto da sobrinha.  Voc ouviu?
 Se for realmente uma emergncia, senhor, sugiro que a leve at um hospital.
Clay suspirou, agradeceu  mulher e desligou.
 E ento, Molly, o que vamos fazer? Isso  uma emergncia, querida?
A garotinha aquietou-se por um momento, olhando para o tio. Mas, quando ele comeava a imaginar que a crise havia terminado, reiniciou a lancinante sesso de choro. Droga! Se Clay ao menos soubesse o que havia de errado...
 Bem, existe mais de um mdico nessa cidade, no ?  Estendendo o brao, ele apanhou a lista telefnica e passou a procurar nomes de pediatras. Depois de trs tentativas frustradas, finalmente conseguiu marcar uma consulta com um certo dr. Avery.
 Ainda bem, doutor!  exclamou, entusiasmado, ao desligar o aparelho.  Voc  exatamente o homem de que eu precisava.
Abaixando a cabea, beijou os cabelos da menina. Ela cheirava to bem... E aparentemente estava cansada, j que o choro se reduzira a alguns gemidos roucos.
Mas era hora de agir. Clay marcara a consulta para meia hora depois. Por isso, teve que se apressar para vestir a sobrinha e trocar as prprias roupas.
Minutos depois, contendo a respirao, saiu do edifcio carregando a menina nos braos. Felizmente, o consultrio do dr. Avery ficava a apenas duas quadras.
Havia algumas desvantagens em posar como um homem pobre. Clay alugara um apartamento barato e seu velho sedan de doze cilindros j no funcionava direito. Mas ele faria qualquer coisa para permanecer incgnito.
Afinal de contas, sempre que aparecia como Clay Barton, filho de um dos maiores magnatas do petrleo do Texas, era importunado pelos avanos de mulheres inescrupulosas, caadoras de fortuna.
Quatro anos antes ele decidira, portanto, abandonar a agitao social para levar uma vida mais simples. Gostava de exilar-se. E, embora a famlia no o compreendesse totalmente, todos respeitavam sua deciso. Era a nica forma de conseguir algum tempo para trabalhar com as invenes, afinal.
Antes de sair, ele tentou fazer o carro pegar, mas a velha mquina no deu sinal de vida. Bem, teria mesmo que ir a p.
A sala de espera do dr. Tiffany Avery era pequena. Obviamente, o mdico estava no comeo da carreira, concluiu. Do outro lado de uma pequena mesa, uma recepcionista sorridente, com aparncia de colegial, o acolheu com simpatia.
 Nossa, mas essa menina tem mesmo um belo pulmo, no ?  a jovem referia-se, obviamente, ao choro contnuo de Molly.
 Sim  Clay assentiu, procurando no bolso a carta deixada pela irm, incumbindo-o de cuidar de Molly. Sem aquilo, no seria atendido pelo mdico. Droga, no estava l! Talvez tivesse esquecido o documento em casa, ou ento no interior do carro, por ter sado com muita pressa.  Sou Clay Barton...  balbuciou, procurando as palavras certas.  E essa  Molly, minha... filha.
Naquele momento, uma porta se abriu e uma mulher lindssima apareceu.
 Posso ajud-lo?  ela perguntou, aproximando-se da mesa da recepo.
 Sim. Preciso ver o dr. Avery imediatamente  ele informou, deixando escapar um suspiro aliviado.  Molly no pra de chorar.
A mulher estendeu a mo.
 Eu sou a dra. Avery.
Clay franziu as sobrancelhas com espanto. Apertou a mo da mulher com hesitao. Que diabos... Mas Tiffany no era um nome masculino?
 Sinto muito, eu no esperava...
 ...Uma mulher?  Tiffany completou a sentena.
 Pelo menos no to jovem e bonita  Clay confirmou, estendendo o beb de imediato.
 Por que o senhor mesmo no traz Molly at a sala de exames?
Tiffany j estava acostumada quele tipo de reao. Seu primeiro nome confundia muitas pessoas, que passavam a esperar por um mdico velho e bonacho...
 O senhor poderia despir a menina, por favor?  pediu logo que chegaram  sala de exames.
Enquanto falava, caminhou at a bancada, onde apanhou um termmetro. S quando se virou foi que percebeu a forma carinhosa como o homem despia a filha. Ele fazia movimentos cuidadosos, como se temesse quebrar uma pea delicada de porcelana. Subitamente, Tiffany sentiu um inexplicvel cime da sra. Barton, ao mesmo tempo em que pensava em Edward. Jamais seria capaz de imagin-lo tratando algum com tanto carinho.
Isso no  justo, recriminou-se.
Edward j criara trs filhos. Tiffany compreendia a relutncia dele em ter mais um. Poderiam levar uma vida feliz, sem crianas. Ou, quem sabe, conseguisse faz-lo mudar de idia no futuro.
Quando Clay terminou de despir a menina, a mdica se aproximou, para medir-lhe a temperatura.
 Pode me dizer o que aconteceu?  perguntou, ao terminar o exame inicial.
Clay enfiou as mos nos bolsos e encarou-a com uma expresso culpada.
 Bem, ela simplesmente comeou a chorar logo depois que a me saiu.
 E isso aconteceu h quanto tempo? 
Ele consultou o relgio de pulso.
 Acho que j faz quase trs horas!
 Alguma coisa precipitou a crise de choro?
 O que quer dizer?
 A barriga dela parece estar um pouco estufada. Quando foi a ltima vez que evacuou?
Ele corou.
 Eu... ahn... no sei.
 Ela comeu algo a que no estivesse acostumada?
 Dei-lhe banana amassada.  Clay franziu as sobrancelhas.  Mas no sei se ela estava acostumada a isso ou no.
 Por que no liga para sua mulher e pergunta?
 Bem...  Ele hesitou outra vez.  Ns no somos casados.  Por algum motivo estpido, Clay no queria que a bela dra. Tiffany pensasse que fosse comprometido.
 No precisa me explicar qual  seu estado civil. Eu apenas desejava determinar se Molly est ou no com clicas.  Tiffany sorriu, e naquele momento foi como se uma seta trespassasse o corao de Clay.
Que timo, ele pensou.
Agora a mulher ia imaginar que engravidara uma mulher e no quisera assumir a paternidade... Diabos, a bela dra. Avery devia julg-lo um verdadeiro canalha.
 Acha que  clica?  ele murmurou, retorcendo ansiosamente as mos.
 Talvez seja apenas uma boa e velha dor de barriga.  Tiffany terminou de vestir a menina e entregou-a a Clay.  Vou receitar algo.
A mdica sentou-se a uma escrivaninha, ao lado da mesa de exames, e pegou um bloco de receitas. Clay no pde deixar de notar quando ela cruzou as pernas esculturais. Suspirou. A bela dra. Tiffany Avery parecia ter sado das pginas de um conto de fadas. Na verdade, parecia-se muito com a Branca de Neve pela qual Clay fora apaixonado na infncia...
 Escute  ele disse , preciso ser honesto com voc. 
A dra. Tiffany ergueu a cabea para encar-lo.
 Sim?  A voz era lmpida como cristal. Clay engoliu em seco.
 No sou o pai de Molly.
 O qu?
Ao notar a expresso furiosa da mdica, ele massageou o pescoo.
 Molly  minha sobrinha, no minha filha. Estou apenas tomando conta dela enquanto minha irm est fora da cidade.
 Oh!
Ele abaixou a cabea.
 Eu no queria mentir para voc, mas estava desesperado.
Tiffany o encarou friamente.
 O senhor sabia, sr. Barton, que eu podia perder minha licena por tratar de Molly sem a autorizao da me dela? Eu nem mesmo sou a pediatra da menina...
 Oh, mas eu tenho a permisso de Anne por escrito. Apenas esqueci no carro...
 Ento v at l e traga o documento.  Ela falava com Clay no mesmo tom de uma professora que repreendesse um aluno travesso.
Grande, Barton, agora ela pensa que voc  um idiota.
  que... ahn... acho que esse  outro problema  ele murmurou, tentando se justificar.
 Sim?
A dra. Avery continuou a fit-lo com seus imperturbveis e lmpidos olhos azuis. J fazia muito tempo que uma mulher no mexia assim com ele. Clay segurou Molly contra o peito e notou que a menina finalmente tinha parado de chorar.
  que meu carro no pegou e tive que trazer minha sobrinha a p.
Um sorriso curvou os lbios de Tiffany.
 Parece que voc e Molly tiveram um dia bem agitado, no  mesmo, sr. Barton?
 Clay.
 Seu sobrenome  Clay?
Oh, no. Meu primeiro nome  Clay. Clay Barton. Mas, por favor, chame-me apenas de Clay  ele emendou, aturdido pela beleza daquela mulher.
Comportava-se como um menino de colgio. Por que aquela mdica o deixava envergonhado e sem jeito? Afinal de contas, ele no podia ser chamado de inexperiente, uma vez que sara com algumas das mais belas mulheres do Texas.
 Certo, Clay. Nosso problema pode ser resolvido facilmente. Levo voc e Molly at sua casa. Ento voc poder apanhar a permisso e me entregar. Que tal?
 No quero lhe causar nenhum transtorno, dra. Avery  Clay comentou.
 No ser um transtorno. No caminho podemos parar na farmcia e comprar o remdio de Molly, certo?
Ela se levantou, chegando perto de Clay. O perfume floral que usava penetrou nas narinas dele. O aroma era suave e delicado, como a prpria mdica. Violetas. Era isso. A dra. Tiffany Avery cheirava a violetas.
 Obrigado  Clay agradeceu, surpreendendo-se ao notar como a prpria voz soava rouca e sedutora.
 Parece que nossa pequena paciente j dormiu  Tiffany comentou, estendendo a mo para acariciar a menina.
 Ela estava mesmo precisando descansar.
 Sabe, sr. Barton,  realmente muito gentil de sua parte cuidar assim de sua sobrinha. Muitos homens no fariam isso.
A dra. Avery o achava gentil! Clay no sabia se era bom ou mau sinal. Gostaria que ela o julgasse msculo e atraente, no uma mamezinha.
 No tive alternativa. A sogra de Anne teve que ser submetida a uma cirurgia e no havia mais ningum para cuidar da menina.
 Sua irm  uma mulher de sorte.
 Ora, dra. Avery! Assim eu vou acabar ficando sem jeito!
 No sei por que, sr. Barton, mas no acredito nisso.  Os olhos azuis brilhavam intensamente.  Voc me parece muito confiante.
  mesmo?
 Deixe-me apenas apanhar as chaves. Depois levo vocs para casa.
Clay seguiu Tiffany com o olhar enquanto ela voltava  escrivaninha e apanhava seus pertences em uma das gavetas. Todos os ngulos de seu corpo eram perfeitos. Contendo um suspiro, ele concluiu que sem dvida a bela dra. Avery poderia aparecer sem demrito em qualquer capa de revista de moda. Mas havia um detalhe que tambm no lhe passou despercebido. Ela usava um anel de noivado na mo direita...
 Aqui esto  Tiffany anunciou, erguendo um molho de chaves.
 Realmente no quero atrapalh-la. Detesto ser um incmodo.
Ela sorriu outra vez.
 No  nenhum incmodo.  Reparou na maneira carinhosa de o tio segurar a menina.  Na verdade, essa  minha tarde de folga. Apenas concordei em ver Molly porque Lilly, minha recepcionista, disse que a menina estava chorando muito alto do outro lado do telefone. E acontece que, como deve imaginar, detesto ver crianas chorando.
 Ela me deu um susto...
 No tem filhos, sr. Barton?
 Eu? Oh, no. Nunca fui casado.
 Voc parece ter muito jeito com crianas.
O oposto de Edward, uma voz interior fez questo de lembrar.
Um riso sem jeito saiu dos lbios dele.
 Devia ter me visto uma hora atrs! Eu parecia um doido varrido.
Tiffany gostou do som daquela voz. Chegou a imaginar como devia ser bom ouvi-lo dizer coisas de amor numa noite de luar.... Ora, mas em que diabos estava pensando? Seu casamento aconteceria dali a seis meses. Por que ficava fantasiando situaes com um estranho?
Tinha que admitir que ele era atraente, claro. O tipo de homem que a me teria chamado de um pedao.
Parecia uma mistura perfeita e equilibrada dos mais belos gals de cinema, e o fato de segurar aquele beb com tanto jeito s aumentava sua masculinidade. Sem dvida, um homem cem por cento fantasia...
Pare com isso j, Tiffany Avery, a voz da conscincia advertiu-a.
Precisava se lembrar de que j estava comprometida com o homem certo. Sim, o dr. Edward James Bennet III era tudo de que precisava. Oferecia estabilidade, conforto, segurana...
Mas... e quanto  paixo? E quanto ao desejo fsico?
Durante os seis meses de noivado com Edward, ela jamais sentira o que Clay Barton conseguira despertar com um simples sorriso. Tiffany meneou a cabea, para afastar tais pensamentos. Jurara nunca se deixar levar pela paixo, como a prpria me... que depois pagara um preo bem alto por isso.
 Est pronto, sr. Barton?  perguntou, voltando a falar num tom estritamente profissional.
 Por favor  ele pediu , chame-me de Clay.
 Certo, Clay. Siga-me, ento.  Ela o conduziu pela sada dos fundos, at o ptio de estacionamento do prdio comercial, onde um carro esporte ltimo tipo os aguardava.
Clay examinou o veculo e assobiou.
 Isso deve ter custado uma fortuna!
Tiffany corou.
 Meu noivo me deu de presente quando me formei. Eu estava to endividada com as despesas do curso de medicina que jamais conseguiria comprar um carro assim to caro.
 Seu noivo? Ele deve ser bem rico.
 Sim, pode-se dizer que Edward tem uma certa estabilidade financeira...
Seria apenas imaginao ou ela realmente tinha percebido um certo desapontamento no rosto anguloso de Clay Barton? De qualquer forma, ao sentar-se atrs do volante e afivelar o cinto de segurana, evitou o olhar dele.
 Oh, droga!  lamentou.  No tenho assento para o beb!
 Tudo bem  Clay tranqilizou-a. Segurava Molly junto ao peito, para proteg-la melhor.  Moro a apenas duas quadras daqui, e posso usar o cinto de segurana ao redor de ns dois.
Enquanto manobrava, no estacionamento, Tiffany concluiu que gostava daquele carro esporte vermelho, presente de Edward. Sem dvida era um sinal inequvoco da afeio que o noivo nutria por ela. Ningum em sua famlia jamais possura um carro novo. Ela se lembrava muito bem da sucesso de calhambeques do pai, e imaginou que Clay Barton provavelmente dirigia uma velharia como aquelas. Parecia aquele tipo de pessoa.
Mas cuidava bem da sobrinha, e aquilo no era comum. Na verdade, Clay Barton no se encaixava em nenhuma descrio comum.
Velhas lembranas voltaram-lhe  mente. Memrias que Tiffany desejava desesperadamente esquecer. Seu pai sempre fora um sonhador, correndo a vida toda atrs de dinheiro fcil. Recordava-se de como ele a arrastara, e  me, de estado em estado durante a infncia. Nunca ficavam mais do que alguns meses em um lugar. Tiffany sempre tivera dificuldade para fazer amigos, e por isso aquele perodo fora um dos mais solitrios de sua vida.
Dez anos antes, o pai morrera, deixando a famlia desamparada. Durante toda a vida prometera casas luxuosas, carros novos e muito dinheiro, mas tais promessas jamais haviam sido cumpridas.
E, por mais que ela amasse o pai, tinha que reconhecer que ele desperdiara a vida com seus delrios de grandeza.
Aquele fora um dos motivos que a fizera jurar para si mesma que s se envolveria com um homem estvel e realista. Tomara essa deciso muito jovem, e agora seus sonhos estavam se tornando realidade. Alm de ter triunfado na carreira mdica, a perspectiva de um casamento com o dr. Edward Bennet lhe asseguraria a estabilidade e a segurana que sua me nunca conhecera. Logo que chegou  rua, sada do estacionamento, ela parou o carro e desligou o motor.
 Volto num minuto  avisou a Clay, saltando e indo direto  farmcia, para comprar o remdio de Molly.
Enquanto esperava para ser atendida, olhou para tio e sobrinha, sentados no carro. Engraado, pensou. Podiam formar uma famlia. Um estranho que assistisse  cena provavelmente pensaria assim.
 Aqui est, doutora  o farmacutico informou, entregando-lhe um pacote.
 Muito obrigada  disse Tiffany, pagando em seguida. 
O que estava fazendo, afinal? Aquela situao sem dvida no se inclua no juramento de Hipcrates. Nenhum mdico, ao se formar, jurava comprar remdios para um paciente, nem dar caronas para estranhos.
 Qual  o problema com voc?  ela murmurou ao cruzar a porta de vidro e atingir a calada.
No ntimo, sabia a resposta. Sem dvida aquele estranho encantador e sua sobrinha haviam despertado seu instinto maternal. Um instinto, alis, que Edward preferia ignorar.
 Aqui vamos ns  anunciou, fingindo entusiasmo, ao entrar novamente no carro.
 Shhh...  Clay sussurrou.
A menina, agora recostada no ombro dele, dormia.
 Bem  Tiffany ponderou, reduzindo a voz a um sussurro , finalmente voc vai ter algum sossego.  Estendeu-lhe o pacote do remdio e colocou o cinto de segurana.  Certo, Clay, em que direo devo ir?
 Pegue  esquerda no primeiro semforo.  o segundo conjunto de apartamentos  direita. Realmente, achei muita gentileza de sua parte nos trazer at minha casa.
 Foi um prazer.  Tiffany dirigia cautelosamente pelo trfego leve do meio de tarde.  O que faz para viver, Clay, para poder ficar em casa durante o dia?
 Hum...
Ora, ento ele era desempregado! Devia ter adivinhado.
 Sou inventor.
Oh, no, aquilo era pior do que ser desempregado! Outro tipo sonhador, exatamente como seu pai. Era realmente uma vergonha que os homens charmosos no tivessem um trao de carter. Felizmente, ela j encontrara um homem responsvel. Edward podia no ser to sexy, mas com certeza no se tratava de um vagabundo.
 E como paga as contas? Se no se importa que eu pergunte, claro.
Clay olhou-a de relance.
 No se preocupe. Posso pagar pela consulta da Molly. Meu cheque tem fundos.
Tiffany no pde evitar o rubor.
 No foi isso que eu quis dizer.
Ser que Tiffany Avery era do tipo que ficava impressionada com uma conta bancria? Parecia uma mulher de classe, fria e inteligente. O instinto de Clay lhe dizia que no, que havia algo mais sob aquela aparncia. Mas, ento, como explicar o fato de ela ter aceitado um presente caro do noivo? Clay era experiente o bastante para saber que tais smbolos de status sempre estavam associados a caadoras de fortuna.
 Para ser franco, ganho algum dinheiro com os direitos de uma inveno que patenteei dois anos atrs.
 Entendo.
Sim. A forma como ela encolheu os ombros indicou a Clay que Tiffany estava medindo sua capacidade de ganhar dinheiro, e aparentemente ele se sara muito mal no teste. Para pessoas como a dra. Avery, um homem capaz de ousar seguir os prprios sonhos no passava de um intil. No ntimo, ele tentava imaginar qual seria a reao da bela doutora se soubesse que estava diante de um milionrio...
Quem era ela para julg-lo? Pelo pouco que pudera perceber, a mdica devia merecer o tal noivo. Mas, para Clay, havia coisas que importavam muito mais do que o dinheiro. Coisas como integridade e o desejo de fazer algo que se amava.
 J chegamos  ele informou, indicando o prdio onde morava.
Queria voltar logo para seu santurio, onde no precisaria mais encarar os olhos prfidos da dra. Tiffany Avery.
 Em que prdio voc mora?  ela perguntou, olhando-o de relance.
 No segundo  direita.
 Certo.
Tiffany encontrou um lugar e estacionou rapidamente. Molly acordou, voltando a chorar. Clay livrou-se do cinto de segurana logo que o carro parou e apressou-se em descer. Nas mos, segurava o pacote de remdio.
 Obrigado, dra. Avery. Foi muita gentileza nos dar uma carona.
Ansioso para escapar, disparou pela calada antes que Tiffany pudesse se mexer no assento.
 No precisa agradecer.
Ela sorriu, ainda amistosamente, mas algo mudara em sua voz.
Os gritos de Molly tinham se intensificado. Ele precisava entrar logo. No apenas para dar o remdio para a menina, mas tambm para afastar-se definitivamente daquela mulher interesseira.
Procurou pelas chaves no bolso. Molly continuava recostada em seu ombro, mexendo-se um pouco. Com a respirao suspensa, ele ouviu o rudo dos saltos altos da dra. Avery se aproximando, ao mesmo tempo em que sentiu o aroma de violetas tomar conta do ar.
Ela bateu-lhe no ombro. Aquilo o assustou, fazendo-o saltar e provocar novamente um forte acesso de choro em Molly.
 Por que no me deixa segurar a menina? Pelo menos enquanto apanha aquela permisso da me?  Com um sorriso solcito, pegou a garotinha.
Virando-se para encar-la, Clay bateu na testa.
 Ora, a nota de Anne... eu tinha me esquecido completamente!  A bizarra atrao que sentira pela bela mdica o fizera parar de pensar direito.  Est no meu carro.
Embaraado, sabendo que era observado, foi at o ptio aberto, onde ficava a engenhoca velha que costumava chamar de carro. A pintura do automvel estava com um pssimo aspecto, e os pneus tambm j demonstravam sinais de velhice. Que contraste com o belo carro esporte estacionado a poucos metros dali!
Clay sabia intimamente no que a doutora devia estar pensando. Provavelmente o considerava um vagabundo irresponsvel, com mais de trinta anos de idade.
No ligue, Barton, murmurou para si mesmo enquanto caminhava. Entregue logo esse maldito bilhete e tire essa mulher de sua vida.



CAPTULO II
Clay havia deixado as chaves penduradas na fechadura. Por isso, Tiffany simplesmente abriu a porta, entrando no apartamento localizado no andar trreo. Olhou ao redor para examinar o ambiente. Definitivamente, aquela era uma casa de solteiro.
Na baguna infernal, latas vazias de refrigerante espalhavam-se sobre a pequena mesa da cozinha. Havia roupas jogadas sobre os mveis. Do outro lado do aposento, uma bancada cheia de equipamentos eletrnicos indicava que ali, sem dvida, era o local de trabalho dele.
Tiffany atravessou a sala e sentou-se no sof, ainda segurando a pequena Molly nos braos. A cabea da menina se ergueu, e as duas se encararam em silncio. Obviamente a presena feminina a acalmara.
Oh, cus, como ela queria ter um beb! Que fosse to bonito quanto aquela garotinha!
 Aqui esto vocs  Clay observou, irrompendo pela porta.
Tiffany virou-se ao notar-lhe o tom preocupado. Tinha os cabelos despenteados, como se houvesse voltado correndo do estacionamento. Nas mos, segurava um pedao de papel.
 Muito obrigada.
Tiffany colocou a menina no sof e avanou at Clay, apanhando o bilhete. Ao fazer aquilo, porm, notou-lhe o olhar brilhante.
Ento ele tambm se sentia atrado! O pensamento fez com que ela prendesse a respirao. Devia haver alguma explicao razovel para a atrao magntica que parecia ligar os dois.
Sem dvida era apenas qumica, apenas sexo. Ela era uma mulher, afinal. Mas no estava acostumada a sentir aquele tipo de coisa. Seu noivo era um tipo muito conservador, que fazia questo de no a tocar at o casamento. Sim, talvez fosse apenas isso, um pequeno desequilbrio causado pelos hormnios.
 Bem  ela disse, dobrando o bilhete e colocando-o na bolsa,  preciso ir.
 Obrigado outra vez, dra. Avery. Por toda a sua ajuda.
 Foi um prazer. Espero que Molly melhore logo.  Olhou para a menina e sorriu.  Chame-me se precisar de mais alguma coisa.
 Farei isso.  Clay seguiu-a at a porta.
 At mais ver  Tiffany murmurou, e dirigiu-se para a porta da frente do edifcio, com o corao batendo acelerado.
Suas mos ainda tremiam quando abriu a porta do carro.
O que diabos est acontecendo comigo?, ela se perguntou, mordiscando o lbio inferior, em pnico.
Melhor voltar logo para o consultrio e tirar o sedutor Clay Barton da cabea.

 Boa noite, Lilly.
 Boa noite, dra. Avery. Vejo-a amanh.
 Tome cuidado ao voltar para casa.  Tiffany ergueu a cabea e pousou a caneta-tinteiro sobre o tampo da escrivaninha.
 Oh!  Lilly fez uma pausa.  Esqueci de dizer, mas aquele bonito que esteve aqui hoje  tarde esqueceu uma bolsa com as coisas do beb na recepo. Guardei l no depsito.
  mesmo? Bem... Ser que voc pode ligar para o sr. Barton pela manh e dizer que encontrou a bolsa? Com certeza ele vai dar pela falta.
 Tudo bem.  A recepcionista sorriu, vestindo seu suter rapidamente.  No trabalhe at muito tarde.
 Estou quase terminando. Vou sair hoje  noite.
 Com o dr. Bennet?
 Sim.
 Divirtam-se, ento  Lilly murmurou, saindo em seguida pela porta dos fundos.
Tiffany recostou-se no espaldar da cadeira de couro e olhou de relance para a porta que dava para o depsito. No havia motivo para esperar at o dia seguinte. Podia passar pelo apartamento de Barton, a caminho de casa, e devolver a bolsa. Ele precisava daquilo para cuidar da menina..
Aquela no era apenas uma desculpa para ver Clay outra vez, era?
 De jeito nenhum  ela respondeu em voz alta, meneando a cabea. Estava apenas querendo fazer um favor a um cliente.
O telefone tocou. Tiffany esticou-se para apanhar o aparelho.
 Al.  A voz de Edward, segura e firme, a trouxe  realidade.  A que horas quer que eu passe em sua casa?
 Sinto muito, querido.  Ela apoiou o fone no ombro e consultou a agenda.  Esqueci de anotar qual vai ser o horrio do jantar beneficente.
 Ser s oito horas. Voc no vai ter muito tempo para se trocar.
No fundo, ela achava muito entediante aqueles jantares. Edward os freqentava para fazer poltica com os poderosos diretores dos hospitais locais. s vezes era realmente entediante relacionar-se com um homem poderoso.
 Edward, vou me atrasar um pouco. Tenho que parar, a caminho de casa, para ver uma paciente.
 Tiffany, j a adverti sobre esse hbito de atender clientes em domiclio  ele murmurou com impacincia.
 Faa isso uma vez e eles vo achar que  normal. Logo, logo estaro esperando que voc saia de casa no meio da noite para atender qualquer chamado. Precisa aprender a ser mais firme, querida.
 Tenho certeza de que voc tem razo.  Ela suspirou.  Mas vai levar apenas alguns minutos.
 No posso me atrasar, voc sabe. Sou o principal orador da noite.
O tom dele a incomodou. Alis, muitas coisas em Edward vinham-na incomodando de forma inexplicvel nos ltimos tempos.
 Vou lhe dar uma idia, ento. Por que voc no vai antes?
 O qu? Chegar sem uma acompanhante?
 Eu o encontro l. Assim, voc no vai ter que passar em minha casa apenas para me pegar.
Ele fez uma pausa.
 Acho que  mesmo a melhor coisa a fazer.
 Vejo-o s oito, ento.  no pavilho Sid-Richardson, certo?
 Correto.
Eles se despediram e desligaram. Tiffany apanhou a prpria bolsa e aquela que continha as coisas de Molly. Olhando para o relgio, concluiu que teria tempo suficiente para passar no apartamento de Clay Barton, entregar a bolsa e ir para casa se arrumar. Claro que precisaria se apressar, mas no pretendia fazer uma parada longa na casa de Barton.
Saiu do prdio e notou que esfriara. As lmpadas da rua j estavam acesas e o movimento diminura bastante. Colocou a bolsa de Molly no porta-malas e dirigiu para o conjunto residencial onde estivera naquela mesma tarde.
Quando chegou, notou que seu corao batia de forma estranhamente acelerada.
Devo estar tomando caf demais, arriscou, sabendo que aquilo no era verdade.
Bateu  porta. No houve resposta imediata, e ela quase pensou em dar meia-volta e sumir dali. Mas, em vez disso, tomou coragem e bateu outra vez.
Se ele no responder em quinze segundos, vou embora, disse a si mesma.
Naquele exato momento a porta se abriu. Clay a encarou, parado ali, sem camisa, vestindo apenas uma cala jeans muito velha. O peito musculoso e bem-delineado daquele homem realmente era maravilhoso. Sem dvida ele passava a maior parte do tempo numa academia de ginstica.
 Dra. Avery?
 Passei para entregar a bolsa de Molly.  Estendeu o objeto com um sorriso tmido.  Voc acabou esquecendo na recepo.
 Ainda bem que passou por aqui!  Ele a segurou pelo brao com firmeza e puxou-a para dentro do apartamento.
 Qual  o problema?
Ele nem precisou responder. Molly manifestou-se com um choro alto e lancinante.
 Dei o remdio a ela, e funcionou bem por algum tempo. Molly dormiu por mais ou menos uma hora. Mas, alguns minutos atrs, acordou e comeou a chorar de novo, cada vez mais alto. Estou desesperado. J no sei mais o que fazer.
Tiffany sentiu um aperto no corao. Aquele pobre homem, tendo que cuidar sozinho de uma criana pequena... Tirou o casaco e entrou na casa, seguindo o choro de Molly at o quarto de Clay.
A menina, no meio da cama, segurava o cobertor com tanta fora que seus dedinhos mostravam-se brancos. Lgrimas escorriam pelo rosto infantil.
 Calma, calma  Tiffany murmurou, inclinando-se sobre a cama e apanhando a garota nos braos.  Voc est com saudade da mame, no ?
Clay limitou-se a ficar parado, encostado no batente da porta, os braos cruzados. Estava fascinado com o jeito que Tiffany parecia ter com crianas. Bem, era a profisso dela, concluiu ao notar que a menina se acalmava outra vez.
  difcil para uma criana to pequena ficar longe da me  a mdica explicou.
  ainda mais difcil para mim  Clay resmungou.  Sinto-me totalmente intil.
 Oh, no!  Tiffany meneou a cabea devagar.  Voc est fazendo um timo trabalho.
 Pensa mesmo assim?
 Claro. Poucos homens aceitariam cuidar de um beb. Sua irm  uma mulher de sorte.
Os olhares dos dois se encontraram. Pela primeira vez, Tiffany notou que os olhos dele eram cinzentos, e sua pulsao acelerou-se outra vez. Enquanto examinava os lbios finos de Clay, uma pergunta indiscreta surgiu em sua mente. Ser que ele beijava como Edward? Ou os beijos daquele homem seriam mais selvagens, mais sensuais? Teve que respirar profundamente para afastar tais pensamentos.
Felizmente o telefone tocou naquele instante, ajudando-a a recuperar o autocontrole.
 Espere um segundo  Clay pediu, desaparecendo pelo corredor logo depois.
 Sim, senhorita  Tiffany murmurou, olhando fixamente para a criana que embalava.  Voc s queria um pouco de colo, no  mesmo?
Molly estendeu a mozinha e levou-a aos lbios.
 Est com fome? Aposto que o tio Clay no sabe como alimentar um beb, no ? Vamos l, doura, vamos preparar uma papinha bem gostosa para voc.
A afeio que sentia por aquela menina a surpreendia. Trabalhava com crianas todos os dias, mas nunca experimentara uma sensao maternal to intensa. Talvez aquilo estivesse relacionado ao fato de ter completado vinte e nove anos. Ou ento era uma reao s palavras de Edward, que declarara no estar absolutamente interessado em ter mais nem um filho.
Quando Tiffany entrou na cozinha, encontrou Clay recostado no balco da copa.
 ...sim, Anne, Molly est muito bem.
A mdica arqueou as sobrancelhas, encarando-o, e ele limitou-se a encolher os ombros.
 No precisa se preocupar com nada. Estou cuidando de tudo por aqui. Sim... certo... Agora acho melhor voc descansar um pouco. Prometo que ligo se alguma coisa acontecer. At logo. Um beijo para voc tambm.  Clay finalmente desligou.
 Droga!  Ele suspirou, passando os dedos entre os cabelos.  Parece que a me de Holt no est nada bem. Tiveram que coloc-la na UTI hoje  noite. Ele e Anne vo ter que ficar fora de casa mais tempo do que planejaram.
 Foi por isso que no contou nada sobre Molly?  Tiffany perguntou, abrindo a geladeira e procurando pela garrafa de leite.
 O que mais eu poderia dizer? No posso deixar minha irm mais preocupada do que j est. Nem sei se vou conseguir sobreviver a essa experincia de paternidade forada.
 Pegue isso  ela instruiu, voltando  geladeira e retirando de l uma lata de cerveja.  Sente-se um pouco e relaxe. Ligue a televiso e se distraa enquanto eu alimento a menina. Oh... e coloque uma camisa, por favor.
 Por qu?  Ele sorriu.  Voc se incomoda em me ver assim?
 Claro que no  ela mentiu.  S no quero que pegue um resfriado. Se isso acontecer, quem vai tomar conta de Molly?
O sorriso de Clay se acentuou, e Tiffany concluiu que no o enganara.
 Tudo bem, doutora. Voc  a mdica por aqui.
Enquanto Clay ia para o quarto, colocar a camisa, Tiffany preparou uma deliciosa mamadeira para a menina. Antes de alimentar a criana, porm, certificou-se de que a temperatura era correta, testando na prpria mo.
Quando Molly comeou a mamar, no conseguiu esconder a satisfao, parando imediatamente de chorar e soltando suspiros aliviados.
 Voc estava com fome, no , pequenina?  Tiffany segurava a menina contra o peito, observando os pequenos dedos enrodilharem a mamadeira.
Clay voltou naquele momento. Vestira uma camiseta branca, justa, que apenas acentuava seu bceps poderoso e desenvolvido.
 Eu tinha ligado para pedir uma pizza pouco antes que Molly acordasse. Quer jantar comigo?  ele perguntou, sorvendo um gole de cerveja.  Seria o mnimo que eu poderia fazer para retribuir a ateno que dispensou a minha sobrinha.
  uma oferta muito gentil, mas eu realmente preciso ir.
A mdica consultou o relgio de pulso. Sete e quinze. No teria tempo de ir para casa se trocar. Edward provavelmente ficaria decepcionado por v-la usando as roupas de trabalho.
A campainha tocou, anunciando a provvel chegada da pizza. Clay colocou a lata de cerveja sobre a mesa e procurou o dinheiro no bolso. Quando abriu a porta, o aroma da comida penetrou no ambiente. Edward nunca comia pizza. Vivia dizendo que aquilo era um horror gastronmico.
Ao voltar para a cozinha, Clay encarou-a fixamente, abrindo a embalagem.
 Tem certeza de que no quer um pouco? No vou comer isso tudo  insistiu, tentando-a.  Vamos l, um pedao no vai mat-la.
 Bem...
Tiffany hesitou. Comera apenas duas fatias de po pela manh e uma ma na hora do almoo.
 Vai me deixar comer sozinho?  ele desafiou.
 Bem, talvez apenas um pedao, mas depois vou ter mesmo que ir embora.
 Eu sabia que voc no resistiria  Clay murmurou, piscando satisfeito.
A garotinha terminara a mamadeira. Suas plpebras pareciam pesadas, indicando que ela estava prestes a cair no sono.
 Voc foi tima com Molly  ele elogiou, apanhando pratos e talheres no armrio da cozinha.
 Voc tambm.
 Engraado... quero dizer,  engraado que nenhum de ns tenha filhos...
 Eu gostaria de ser me.
 E eu, de ser pai. Ou ao menos pensava assim at ter que passar o dia com essa menina... Mas, de qualquer forma,  preciso encontrar a mulher certa antes.  Inclinou-se e acariciou levemente a sobrinha nos cabelos. Molly abriu os olhos e sorriu.  Ei, finalmente est rindo para seu tio?
A garotinha estendeu os braos, e Clay pegou-a no colo. Incapaz de resistir  tentao da pizza, Tiffany adiantou-se e pegou um pedao na caixa.
 No  justo voc comear sem mim  Clay brincou.
 Agora  sua vez de ficar com o beb no colo. Ser que no sabia? Pais nunca conseguem comer juntos por pelo menos dois anos...
 Isso no!  Ele levantou-se, sorrindo, e foi at o quarto, voltando um minuto depois com o carrinho da menina.  Agora  hora de o titio comer, doura. Espere um pouco, certo?  Enquanto falava, encarava a menina com um sorriso brilhante.
 Hum...  Tiffany murmurou, deliciada.
Fazia muito tempo que no experimentava uma pizza. Um ano, pelo menos. A ltima vez fora antes de comear a sair com Edward.
 Voc vai ter um encontro hoje  noite?  Clay perguntou, servindo-se tambm.
 Nada do gnero. Na verdade, meu noivo vai fazer um discurso para levantar fundos para um hospital.
Ele torceu o nariz.
 Poltica. Ugh!
Podia at imaginar o tipo do noivo da bela mdica. Sem dvida, devia ser um sujeito de boa aparncia, com modos impecveis. Controlado. Clay conhecia as caractersticas muito bem. Alis, sua famlia sempre quisera transform-lo numa pessoa assim. O noivo de Tiffany provavelmente era o homem ideal para uma linda mulher solteira.
 Concordo com voc  ela disse.  Mas Edward sempre gostou de poltica, e no quero desapont-lo.
 Est falando como se vocs dois no tivessem muito em comum...
Como uma mulher educada como a dra. Avery poderia desapontar algum?, perguntou ele, de olho nas coxas esculturais. Estavam to perto de suas mos...
 Ns temos muito em comum  Tiffany protestou.
 Por exemplo?
Por que ele queria encurral-la? A idia de que podia estar com cime o espantou.
 Bem, para comear, ns dois somos mdicos, embora ele seja um famoso cirurgio plstico, e eu apenas uma simples pediatra.
 Mas essa carreira  muito estafante. O que vocs fazem para se divertir?  Clay a observava atentamente, tentando decidir quem Tiffany estava querendo convencer, a ele ou a si mesma.
 Edward e eu gostamos de bal e de pratos sofisticados.
Clay olhou para o pedao de pizza que ela segurava.
 O que voc tem nas mos no  exatamente o ponto mximo da culinria, certo?
 Oh, eu no quis dizer nada contra a pizza. Est deliciosa. Na verdade, adoro esse prato. J fazia muito tempo que no o experimentava.
 Quer dizer que o bom e velho Ed no gosta muito de pizza?
A forma ntima como ele falara fez Tiffany sorrir.
 Ele odeia ser chamado de Ed. Como sabe que  mais velho do que eu?
 Apenas um palpite.
 Oh!
 Quantos anos ele  mais velho?  Clay no pde deixar de perguntar.
 Dezesseis anos.
 Bem, j que se trata de seu noivo, vou evitar piadas geritricas.
Podia entender por que Edward gostava de ter uma mulher linda como Tiffany nos braos. Era um bom carto de visitas para um cirurgio plstico, afinal de contas. Todas as mulheres que vissem Tiffany sem dvida a teriam como modelo de beleza, e aquilo era muito bom para os negcios do mdico.
O que Clay no podia entender era o motivo que levava uma mulher jovem a escolher um homem mais velho como companheiro. Devia ser por causa de algum complexo de infncia relacionado com o pai, concluiu.
Tiffany comeu rapidamente seu pedao de pizza, mas uma mancha de molho de tomate ficou em seu queixo. Clay teve que se esforar para no se render ao impulso de inclinar-se e beij-la justamente naquele lugar.
Por que ele pensava naquilo? A dra. Tiffany Avery era noiva. No apenas isso. Ele no podia se envolver com nenhuma mulher naquele momento. No antes que ao menos uma de suas invenes desse lucro. Depois dar-se-ia o direito de sonhar com mulher e filhos. Mas at l precisava permanecer sozinho.
O nico problema era que, quando aquilo acontecesse, Tiffany j estaria casada, com uma dzia de filhos. E ela era exatamente o tipo de mulher que Clay procurava. Independente, bem-sucedida, tima com crianas. Sem mencionar que era linda, esperta e mortalmente sexy.
 Molly pegou no sono  Tiffany murmurou, olhando para o beb.
 O qu?  Clay piscou, deixando os pensamentos loucos de lado e retornando  realidade.  Oh...  mesmo.
 Preciso ir.
 Obrigado mais uma vez.
 Preciso lavar minhas mos.  Ela terminou o ltimo bocado de pizza e mostrou os dedos engordurados.
 Oh, claro. Vou aproveitar para mostrar a torneira automtica que inventei. H uma delas em cada pia.
Tiffany notou que o orgulho daquele homem em relao a suas invenes era genuno. Contendo um suspiro, levantou-se e seguiu-o para fora da cozinha. Quando chegaram ao lavabo, ele virou-se e comeou a explicar o funcionamento da torneira.
 Veja. No h nenhum mecanismo interno, o que evita vazamentos ou entupimentos. Funciona graas a um sistema hidrulico muito simples...  Apertou um boto vrias vezes, para demonstrar.  Mas agora estou trabalhando com coisas mais srias.
 Espera ser inventor o resto da vida?
Clay arqueou as sobrancelhas, surpreso.
 Claro. Essa  a minha vida. Quem gosta de mim, gosta de minhas invenes.
Onde ela j ouvira aquilo antes? Tiffany meneou a cabea lentamente.
 No acha essa idia um pouco ingnua?
Aquele homem comportava-se como o velho sr. Avery.
Tambm vivia num mundo de fantasias irreais.
 No.  Clay cruzou os braos sobre o peito, numa atitude defensiva.
 E como pretende sustentar uma famlia com os escassos rendimentos de inventor?
Ele hesitou por um momento, como se estivesse pensando em dizer algo, mas ento encolheu os ombros.
 Quando eu tiver filhos, eles no vo passar por necessidades.
 Ainda bem que pensa assim. Pelo menos no pretende submeter uma criana a uma infncia pobre.
Ele pareceu intrigado.
 O que quis dizer com isso?
 No se incomode. Apenas pensei em voz alta. 
Quantas vezes ela presenciara discusses entre seus pais? As fantasias do pai versus a necessidade da me em ver alguma comida sobre a mesa? Ele aproximou-se, tocando-a no ombro.
 Eu gostaria de ouvir isso. Em que estava pensando, doutora?
Foi necessrio um grande esforo para que Tiffany enfrentasse os olhos cinzentos e brilhantes de Clay.
 Bem...
 Acha que sou um vagabundo, no ?
 N-no... no mesmo.
Ela engoliu em seco. Podia ler o que seu anfitrio pensava naqueles olhos cinzentos. Os lbios dele curvaram-se lentamente num sorriso irnico. Subitamente, o homem gentil que minutos antes embalava tranqilamente a sobrinha nos braos, transformou-se num macho frio e dominador. O que Tiffany fazia naquele lugar? Por que se sentia to atrada por ele?
Clay tocou-a levemente nos ombros, como se falasse a um velho amigo. Mesmo assim, o simples gesto foi suficiente para que todo o corpo de Tiffany tremesse.
 Vou patentear uma inveno milionria um dia desses  ele prometeu, com um brilho estranho no olhar.  Voc vai ver.
 No precisa me provar nada.
 No mesmo?
 No.  Tiffany desviou a cabea, desesperada para escapar da intensidade daquele olhar.  No represento nada para voc.
Ele levou a mo at os lbios femininos. Com um movimento delicado, forou-a a encar-lo.
Ser que ia beij-la? O corao de Tiffany disparou diante dessa perspectiva. Chocada, percebeu que a idia no a desagradava tanto assim...
Um dos dedos moveu-se lentamente, contornando-lhe o rosto. Ela esperou, prendendo a respirao.
 Que pena  ele finalmente murmurou. Seu rosto estava to perto que Tiffany podia sentir-lhe a respirao.
 De que est falando?  ela sussurrou.
 Pena que voc no me considere bom o bastante para beij-la dra. Avery.  Segurou uma mecha dos cabelos dela.  Poderamos formar um casal e tanto...
Inclinou a cabea e seus lbios ficaram a poucos milmetros dos de Tiffany.
 No acho que voc no seja bom o bastante.
 Oh, no?  Os olhos dele faiscavam.  Ento, por que no me beija?
Ela estava realmente tentada. Clay limitava-se a esperar, com uma das mos em seu queixo e outra ao redor de sua cintura.
 No posso. Tenho um compromisso com outro homem.
 Est mesmo certa disso?
Confusa, ela meneou a cabea.
 O qu?
 Voc tem um compromisso com um homem ou apenas com aquilo que ele pode lhe oferecer?
 Que quer dizer com isso?
Ele a soltou e deu um passo para trs, justamente quando o bip da mdica comeou a tocar.
 Algum a est chamando.
 Oh...  ela puxou o aparelho e olhou para a pequena tela iluminada. Era o nmero do celular de Edward.  Ser que posso usar seu telefone?
Clay gesticulou, indicando o aparelho.
 Esteja  vontade.
Ainda trmula, Tiffany discou. Ele permaneceu parado, examinando-a com o mesmo olhar intenso de momentos antes.
Somente as ouvir a voz de Edward do outro lado da linha Tiffany foi capaz de concentrar os pensamentos na realidade outra vez.
 Querida? Onde voc se encontra? Est tudo bem?
 Sim, Edward, estou tima.
Ao responder, ela se sentiu aliviada. Ainda bem que no sucumbira ao chamado selvagem da paixo.
 Ser que posso perguntar onde voc se encontra? Faltam cinco minutos para s oito e estou no estacionamento do pavilho, esperando.  O tom indicava irritao.
 Desculpe-me, mas acabei levando mais tempo do que imaginava com minha cliente.
 Eu no tinha avisado?
 Sim.  Ela suspirou, exasperada.
Clay aproximou-se e tocou-a novamente no ombro. Tiffany saltou de susto e afastou-se de imediato.
 Livre-se dele  ele sussurrou.  E fique aqui comigo. Podemos terminar a pizza e assistir ao filme Casablanca na ltima sesso.
A oferta era mais tentadora do que ele poderia imaginar. Casablanca era o filme predileto de Tiffany, que fechou os olhos e tentou no sucumbir ao incndio interno que o toque de Clay era capaz de provocar.
 Tiffany? Voc me ouviu? Ainda est a?  Edward parecia realmente furioso.
 Estou.
 Pensei ter ouvido a voz de um homem ao fundo...
 E ouviu mesmo. O sr. Barton. A menina dele est doente.
 Bem, ento diga ao sr. Barton que voc tem um compromisso importante e venha logo para c. Odeio esperar num estacionamento e ir a um jantar sem acompanhante.
 Certo, j estou indo.
 Apresse-se, querida. At logo.
Ele desligou antes que Tiffany tivesse chance de responder. Ser que Edward sempre fora to autoritrio e ela nunca percebera?
 Ele a trata como se fosse filha, no noiva  Clay provocou.
 Fique quieto  Tiffany disparou, sem disposio para discutir.
Homens! Voc d um dedo e eles logo se acham donos de todo o brao!
Clay riu e bateu palmas.
 Ser que eu a coloquei em problemas com o papaizinho?
 Quando  que voc vai parar de falar assim comigo?  Tiffany explodiu.  Vim at aqui para ajud-lo, e est me tratando como uma de suas namoradinhas!
 Ei!  ele retrucou, surpreso.  Foi idia sua vir at aqui para entregar a bolsa.
 O que est querendo dizer com isso?  ela perguntou, colocando as mos na cintura.
 Nada. V embora. Divirta-se. Obrigado pela ateno que dispensou a Molly.  Clay conduziu-a at a sala de estar.  No se preocupe comigo, dra. Avery, pois no pretendo incomod-la outra vez.
 timo  ela respondeu, furiosa. Sua raiva, porm, no se dirigia nem a Clay nem a Edward. Na verdade, estava irritada consigo mesma. Era a nica que podia ser culpada pela situao.  Boa noite, sr. Barton.
Ditas aquelas palavras, ela simplesmente pegou o casaco e partiu, sem olhar para trs.



CAPTULO III
Clay Barton continuou assombrando os pensamentos de Tiffany. Ela no era capaz de pensar em nada alm do belo rosto do inventor sedutor, apelido que criara para descrev-lo. Naquele momento, sentada com ar pensativo na escrivaninha, segurava uma caneca de caf. No dormira um minuto na noite anterior.
O jantar poltico fora entediante, e como sempre Tiffany apenas cumprira a rotina de sorrir como uma boneca por todo o tempo e apertar as mos das pessoas certas. Edward comportara-se de forma estranhamente gentil, chegando at mesmo a cumpriment-la, dizendo-lhe que estava adorvel.
Mas, enquanto saboreava o caviar e a lagosta servidos no jantar, seus pensamentos concentravam-se exclusivamente em Clay Barton. Passara a maior parte do tempo imaginando-o estendido naquele sof, comendo a pizza e assistindo a Casablanca com o bero de Molly ao lado. Teria dado qualquer coisa para estar l.
Quando Edward despedira-se com um beijo, nos degraus do edifcio onde ela morava, tambm fora nos lbios sensuais de Clay que Tiffany pensara.
Droga!
Esmurrando o tampo da mesa, ela decidiu que era hora de parar de se torturar. Sofria apenas de um pequeno ataque de luxria. Mera reao qumica, que nada significava.
De qualquer maneira, a inexplicvel atrao que experimentara por um estranho colocava em questo seu relacionamento com Edward. Como podia se casar se continuava se sentindo atrada por outros homens?
Olhou para o anel de diamantes que Edward lhe dera no jantar em que propusera o noivado. Seis meses j haviam se passado, e dentro do mesmo perodo ela estaria casada. O mdico, sem dvida, teria a capacidade de concretizar todos os seus sonhos de estabilidade e de um futuro garantido. Nunca passaria fome, nem teria que se preocupar em usar roupas velhas. Ao contrrio do pai irresponsvel, Edward poderia sustent-la. Ousaria ela arriscar tudo aquilo por nada?
Mas, por outro lado, ser que realmente amava Edward?
Sua garganta ressecou-se. Tiffany fechou os olhos. Nos ltimos tempos, tentara se convencer daquele amor, especialmente depois que Edward a pedira em casamento. Mas... seria amor mesmo?
O que aquela palavra significava, afinal? Podia explicar todas as emoes que sentia? Sua me fora loucamente apaixonada por seu pai, e aquilo s a conduzira a uma vida de privao e sofrimento.
Levantando-se abruptamente, ela caminhou at a janela, para tomar ar. O que fazer? Quais eram seus objetivos?
Sempre sonhara com um lar normal, onde viveria com um marido dedicado. E teria filhos. Engoliu em seco e ajeitou uma mecha de cabelos atrs da orelha. Edward no queria filhos.
 Dra. Avery?  A voz adolescente de Lilly soou atravs do intercomunicador.  Sua paciente das nove horas j chegou.
Tiffany caminhou at a escrivaninha e apertou um boto no aparelho para responder.
 Obrigada, Lilly. J vou atend-la.
Em seguida, meneou a cabea. No precisava tomar decises com tanta pressa. Nada to importante podia ser resolvido num minuto. Teria todo o tempo do mundo para considerar aquelas decises, mas por enquanto precisava se concentrar apenas em seus pacientes. Sim. Dispunha de muito, muito tempo...

 Vamos l, Molly, oare de brincar com meu tnis.  Clay abaixou-se para tirar o cadaro do calado da boca da menina. A garota sorriu.  No sei se  gostoso, mas tenho certeza de que a dra. Avery no aprovaria
tantos germes assim.
Dra. Tiffany Avery. Era uma mulher to inesquecvel quanto a atriz Ingrid Bergmain em Casablanca. Clay deixou um suspiro escapar entre os dentes cerrados. O que o atrara tanto? Claro que ela era linda, e muito sensual, mas e da? Via mulheres lindas quase todos os dias, mas nenhuma lhe provocara uma sensao to estranha.
 Ora, deixe isso para l.
Analisar os prprios sentimentos fazia Clay sentir-se desconfortvel. Podia passar um dia inteiro estudando o funcionamento mecnico de uma mquina, mas, quando o assunto era sentimentos, preferia enfiar a cabea na terra, como um bom avestruz. Seu lema era: Se voc ignorar uma preocupao por bastante tempo, ela desaparecer. Provavelmente aquilo tambm aconteceria em relao s sensaes erticas flamejantes que a presena da bela mdica provoca.
Molly ergueu a cabea e falou alguma coisa em sua lngua incompreensvel
 Voc tambm vai ser uma destruidora de coraes, no ?  Clay mexeu no queixo da menina com o dedo indicador, encantando com o sorriso que a brincadeira provocou.  Mas me faa um favor, certo? No se case por interesse, como uma certa doutora que ns dois conhecemos...
Isso no  justo, a voz interior o admoestou. Pelo que sabia, Tiffany Avery realmente estava apaixonada pelo noivo. Mas o qu, ento, a levara at o apartamento para devolver aquela bolsa... pessoalmente?
 Imagino que devo estar condenado a ser um novo Rick, no acha?  ele perguntou para a sobrinha, referindo-se ao personagem de Humphrey Bogart no filme a que assistira na noite anterior.
A menina, obviamente, o encarava sem nada compreender.
 Voc est certa. Tenho assistido demais a Casablanca. Acho melhor voc me lembrar de apanhar logo algumas fitas do Rambo na locadora...
Olhou ao redor, examinando a baguna, e sorriu. Ah, os domnios de um homem! Nada de cortinas bordadas ou colchas cor-de-rosa. Nada de tapetes felpudos no banheiro. Apenas coisas essenciais e intrinsecamente masculinas. O que ser que a dra. Avery tinha achado de seu apartamento?
Deve ter odiado, ele concluiu, ainda sorrindo.
Justamente naquele momento o telefone tocou, interrompendo-lhe os pensamentos. Clay levantou-se do sof, abaixou o volume do aparelho de som e virou-se para Molly.
 No v a lugar algum, garotinha  advertiu, brincalho, apontando um dedo para a menina.  E fique longe dos tnis.
Para se precaver, porm, preferiu apanhar os calados antes de atender ao telefone, que continuava tocando. 
 Al?
 Clay,  Anne.
 Ei, mana, como est passando sua sogra?
 Nada bem.
Ele pde notar sinais inequvocos de cansao na voz da irm.
 Sinto muito por ouvir isso.
 Vamos ter que ficar em Little Rock mais tempo do que espervamos. Talvez por toda a semana.
A semana inteira? Clay levou a mo  testa, mas no reclamou.
 Voc ainda est a, querido?
 Claro, mana.
 E a bab, j chegou?
 Ahn... bem, esqueci de ligar.
 Como est se saindo com Molly?
 Muito bem. Estamos nos divertindo muito.
 Fico feliz por tudo ter dado certo, mas acho melhor voc chamar o servio de babs, principalmente agora que vamos demorar um pouco mais. Se esperar muito, talvez no encontre ningum para hoje.
 Certo.
 Muito obrigada. Voc nem  capaz de imaginar o que sua ajuda significa para mim.
 Sem problemas.
 Como est meu anjinho? Vem se comportando bem?
 Claro que sim.
Anne suspirou.
 Voc  uma jia de irmo, sabia? Nunca vou poder retribuir esse favor.
 Preocupe-se apenas com a me de Holt. Nos veremos logo que voc voltar.
 Ligo outra vez amanh  Anne prometeu, desligando em seguida.
Clay voltou direto para a sala.
 Era sua me, srta. Molly Johnson  informou, notando que a menina estava prestes a subir na mesa de centro.  Ei! O que pensa que vai fazer?
A garota virou-se para encar-lo, uma expresso culpada. Havia uma mancha cinzenta em seu rosto, e ela segurava algo firmemente.
O pnico tomou conta do tio.
 Molly, com o que voc estava brincando?  Clay voou at ela, fazendo-a abrir a mo.  Deixe-me ver.
Ela emitiu um som sufocado. Quando abriu a boca. Clay notou que a mesma cor cinzenta podia ser vista em sua pequena lngua.
Freneticamente, olhou para o que a menina tinha nas mos: um rolinho de arame. Pegou-o e colocou-o no bolso.
Sua pulsao acelerou-se. O que fazer? Ser que Molly sentia alguma dor? Teria engolido alguma coisa? Imediatamente, as perspectivas mais terrveis surgiram em sua mente. E se a garganta da menina tivesse ficado ferida? Seria necessria uma cirurgia? O que aconteceria se o metal fosse txico? Ele devia ter contratado logo uma bab!
Sem parar para pensar, Clay apanhou a garota e foi direto para a porta. S parou ao tocar no cho frio do corredor e notar que estava descalo. Rapidamente, foi at a cadeira do corredor e calou os tnis com os quais Molly brincara minutos antes.
Pressionando a menina firmemente contra o peito, como se ela fosse uma bola de futebol americano, correu as duas quadras que separavam sua casa do consultrio da dra. Avery. Irrompeu na recepo poucos minutos depois, sem flego.
Encarando-o com olhos verdes e arregalados, Lilly levantou-se.
 Qual  o problema, sr. Barton?
 Onde est a dra. Avery? Tenho uma emergncia aqui!
 Um momento, por favor.  A recepcionista desapareceu pela porta do consultrio em um segundo.
S naquele instante Clay examinou a sala de espera. As pessoas o encaravam com curiosidade. Ele devia estar parecendo um louco, com os cabelos despenteados e os tnis desamarrados. Molly chorava, talvez espantada com a situao, ou talvez porque estivesse sentindo dor. Ao notar aquilo, Clay ergueu a sobrinha no colo.
 Calma  murmurou.  Calma, belezinha.
Tiffany seguiu Lilly at a recepo. No esperava ver Clay Barton to cedo, muito menos naquele dia. Mas a descrio do pnico dele, feita por sua jovem funcionria, fez com que abandonasse uma consulta de rotina para ver o que estava acontecendo.
Quando cruzou a porta, os olhares dos dois se encontraram. Tiffany notou que o medo tomava conta de Clay. Imediatamente estendeu-lhe a mo.
 Por favor  murmurou calmamente.  Vamos at l atrs.
 Tiffany!  ele exclamou, numa voz embargada pela emoo.  Molly engoliu uma coisa.
Ela colocou-lhe a mo no ombro, num gesto de conforto. Imediatamente seu corao se acelerou.
 Diga-me o que aconteceu.  A voz soou trmula.
 Eu estava com Molly na sala  Clay comeou, colocando a menina na mesa de exames. Tiffany notou-lhe a palidez e as mos muito trmulas. Molly, por sua vez, se acalmara e olhava a cena com interesse.  Eu estava trabalhando num novo invento...
 Sim?  Tiffany indagou, procurando manter a calma e dando algum tempo para que Clay pudesse respirar.
 Bem, eu no queria que Molly ficasse brincando com minhas coisas. Por isso, fiquei com os olhos bem abertos, tomando conta dela.  Finalmente a respirao dele normalizou-se:  Uau, est mesmo quente ou s eu estou sentindo calor?
 Voc passou por uma experincia difcil. Acalme-se, respire profundamente, e ento continue.  Enquanto se dirigia a ele, Tiffany examinava a menina superficialmente, procurando por algum problema visvel.
Clay passou os dedos entre os cabelos.
 Certo. Bem... foi ento que o telefone tocou. Era Anne. S fiquei longe de Molly por alguns segundos, mas quando voltei...  fez um gesto desesperado  ela havia engatinhado at perto da mesa de trabalho e mexia nas minhas coisas.
 Sim?
 Havia essa mancha cinza nos lbios e na lngua dela, e Molly segurava esse metal.
Enfiou a mo no bolso e tirou o arame, estendendo-o. Tiffany examinou o material.
 Isto  ferro, no ?
 Sim.
 Hum...  Ela mordiscou o lbio inferior.
 Molly vai ficar bem?
 Havia alguma outra coisa que ela pudesse ter engolido? 
Ele assentiu.
 Muita. Pedaos de papel, borracha... Nem reparei se faltava alguma coisa.
A mdica tirou o estetoscpio do bolso do avental e colocou-o sobre o peito da menina, auscultando-o por alguns segundos. Molly reagiu com espanto ao contato gelado do metal, mas acabou sorrindo.
 Bem?
 As vias areas dela esto desobstrudas. Sua cor  boa. Obviamente, no h nenhum obstculo no aparelho respiratrio.
 E?  Clay esfregava as mos e parecia to nervoso quanto qualquer pai nas mesmas circunstncias.
Tiffany encolheu os ombros.
 Se ela engoliu algo, provavelmente foi direto para o estmago, sem causar maiores problemas.
 S isso?
 Posso fazer uma radiografia do estmago. 
Clay assentiu.
 Certo. Faa isso.
 Voc no tem certeza se ela engoliu algo, no ? A mancha cinzenta nos lbios pode ter sido causada pelo metal. Nesse caso, o raio X vai ser absolutamente intil.
 O que voc acha melhor?
Ela franziu as sobrancelhas.
 Molly no apresenta nenhum sintoma visvel. Se voc examinasse seu apartamento outra vez, saberia dizer com certeza se algo est faltando?
 Talvez.
 Vamos fazer o seguinte: deixe-me terminar a consulta que estava atendendo. Depois iremos at seu apartamento e veremos se falta alguma coisa. O que acha?
Segurando Molly nos braos, Clay percorreu calado o caminho at o apartamento. A reao de Tiffany o tranqilizara bastante. Se a mdica no demonstrara muita preocupao, era um sinal de que as coisas no deviam estar to ruins. Ao pensar naquilo, olhou de relance para o rosto de traos delicados da bela doutora.
Esquea isso, Barton, disse a si mesmo. Ela  noiva de um mdico famoso. Por que iria se envolver com um inventor maluco?
Claro que, se Tiffany conhecesse a verdadeira identidade dele, as coisas seriam diferentes... Mas quem suportaria viver ao lado de uma mulher sabendo que ela s se interessava por dinheiro e status? Clay comeara a levar uma vida simples justamente para evitar esse tipo de mulher. Se Tiffany Avery ficasse atrada por ele, devia continuar imaginando que era um pobreto. E ento, depois que ele tivesse certeza das intenes da mdica, toda a verdade poderia ser revelada.
Tiffany entrou no apartamento e comeou a circundar o sof, observando a baguna deixada por ele. O cho, perto da mesa, estava cheio de pedaos de metal, papel e borracha.
Um detalhe, porm, no passou despercebido por Clay. Quando ela colocou as mos na cintura, suspirando profundamente, perguntou, curioso:
 Onde est seu anel de noivado?
 Decidi no us-lo mais.
 O qu?
O corao dele acelerou-se ao ouvir aquelas palavras. Notou que Tiffany evitava deliberadamente seu olhar.
 Prefiro no discutir minha vida pessoal, se no se importa.
 Quer dizer que est desistindo do tal mdico?  isso?
 No  da sua conta.
 Isso tem algo a ver comigo?
 No seja convencido. No tenho tempo para bobagens. Deixei muitos clientes me esperando no consultrio.  Tiffany mantinha a cabea baixa.  Agora me diga, onde Molly estava quando voc a encontrou?
 Aqui.
A pulsao da mdica acelerou-se quando ele se aproximou.
 Olhe cuidadosamente. Pense. Est faltando alguma coisa?
Clay ajeitou Molly no colo, examinando atentamente a confuso.
 Nada, parece, mas no posso afirmar com certeza.
Tiffany examinou o ambiente, fixando-se em seguida numa pea esquisita ao lado do aparelho de som. Parecia um compactador de lixo.
 O que  isso?  perguntou.
O rosto de Clay iluminou-se imediatamente.
  o reciclador Barton. A mquina que vai revolucionar todo o conceito de reciclagem.
Tiffany deu um passo adiante, para observar melhor a engenhoca.
 Como funciona?
 Voc coloca qualquer tipo de plstico, papel, alumnio ou vidro nesse tubo e a mquina o transforma num produto reciclado. No  necessrio nem sequer separar o lixo. Coloque tudo aqui, aperte o boto e pronto.
  surpreendente!
Apesar de no compreender uma palavra do jargo tcnico, Tiffany ouviu atentamente a explicao que Clay forneceu em seguida. Ser que ele era diferente de seu pai? O pensamento lhe insuflava um sopro de esperana, mas no era o bastante. Tinha de pensar racionalmente.
Encare os fatos, Tiffany Avery. O que voc realmente quer  o corpo de Clay Barton. No faa isso, advertiu-se.
Afinal de contas, aquele homem representava o que ela tentara evitar por toda a vida. Era atraente e terno com crianas, mas seria um bom marido? No, definitivamente no.
Molly espreguiou nos braos do tio, que apressou-se em coloc-la no cesto.
 E ento?  ele perguntou em seguida.  O que acha?
 Eu...  Tiffany ficou confusa por um instante.
 Est distrada?
 Meu pensamento estava longe daqui. Desculpe-me, no foi muito gentil de minha parte.
Um sorriso curvou os lbios sensuais de Clay. Droga, por que ele parecia to irresistvel?
 O que achou do meu invento?
 Teoricamente, parece muito bom.
 Isso no tem nada a ver com teoria. Estou prestes a patente-lo.
Ele a encarou fixamente. A ansiedade provocou uma reao estranha em Tiffany, causada pela atmosfera envolvente, sensual.
 Continua achando que Molly engoliu algo? 
Ele sorriu.
 No posso dizer ao certo. 
Tiffany olhou para a menina.
 Ela parece bem. Acredito que apenas colocou o metal na boca, nada mais.
 Espero que esteja certa. Agora comeo a entender por que vivem dizendo que filhos deixam nossos cabelos brancos!
Naquele momento, Tiffany examinou os fios castanhos, muito claros, de Clay. Ele teria uma aparncia muito distinta quando ficasse grisalho, o que combinaria com aqueles olhos cinzentos e penetrantes.
Oh, no podia continuar com aquilo por mais tempo.
 A srta. Molly Johnson parece estar se divertindo  ele murmurou.
  uma menina adorvel  Tiffany elogiou num sussurro.
Aquela era outra razo para se afastar de Edward. Se acabasse se casando com ele, teria de esquecer a idia de ter seus prprios filhos.
 Aposto como voc tambm era assim...
O leve toque de Clay foi suficiente para incendiar o corpo de Tiffany e interromper-lhe o curso dos pensamentos. O homem parecia ter o poder do trovo na ponta dos dedos, ela pensou exasperada. O mundo girava ao redor dos dois...
Demorou pouco tempo at que os lbios de ambos se tocassem pela primeira vez. Enquanto a beijava, Clay segurou-a firmemente, puxando-a.
E ela retribuiu ao beijo com uma intensidade assustadora. Chegou a ouvir o grito entusiasmado de Molly ao fundo, mas aquilo no foi suficiente para traz-la  realidade. Aparentemente, Clay Barton era capaz de faz-la esquecer tudo.
 Oh, Tiffany...  ele gemeu, acariciando-a levemente nos seios e praticamente levando-a  loucura.  Quero fazer amor com voc... quero muito.
As palavras de Clay finalmente a despertaram. Se no parassem com aquilo imediatamente, Tiffany no poderia mais se responsabilizar pelos prprios atos.
 Isso  errado  ela murmurou, colocando as mos no peito largo e afastando-o.  Ainda no rompi meu noivado com Edward.
 Diga logo a ele  Clay sussurrou.  Voc no pode estar apaixonada por esse doutor se me beija desse jeito...
Confusa, Tiffany virou-se, levando a mo aos lbios, num gesto nervoso.
 Preciso ir  balbuciou.  Me chame se Molly apresentar qualquer sintoma novo, certo?
 Espere!
Incapaz de lidar com os prprios sentimentos, Tiffany apenas desejava afastar-se quanto antes. Se no fizesse aquilo, poderia enlouquecer.
 Preciso ir. Tenho pacientes  minha espera.
Sem mais nenhuma palavra, sem ao menos olhar para trs, ela partiu.
Clay observou-a, imvel, sentindo o corao bater de forma incontrolvel. Devia existir algum jeito de convenc-la a lhe dar uma chance.
 Oooooo  Molly gritou.
Ao olhar para a sobrinha, ele teve uma idia. E se fingisse que as coisas iam de mal a pior em relao  garotinha, convencendo Tiffany a ajud-lo? Podia usar o discurso sou apenas um solteiro incompetente.... Ela cairia na armadilha sem desconfiar. Clay tinha certeza de que s precisava de algum tempo ao lado dela para conseguir o que queria. Aquela era a resposta. Precisava fazer Tiffany sentir pena dele e de Molly.
 Barton!  elogiou-se em voz alta.  Voc  um gnio!



CAPTULO IV
Nervosa, Tiffany dirigia pelas ruas tranqilas do elegante bairro de West Over Hills. A maior parte das propriedades era protegida por altos muros e cercas de ferro.
Era engraado pensar que o centro de Fort Worth estava apenas alguns quilmetros a leste dali. Os poucos veculos pelos quais passava eram todos luxuosos. A maior parte das casas naquele bairro tinha piscina. Ali moravam apenas banqueiros, mdicos e advogados. As crianas iam aos melhores colgios particulares. Nunca encontraria um inventor pobre e excntrico num lugar como aquele...
Ela sempre desejara morar num bairro assim, e agora essa perspectiva tornava-se cada vez mais distante.
Terminar o noivado no seria nada fcil. No caminho, Tiffany repassara muitas vezes as palavras a dizer, mas no conseguira reuni-las com coerncia. Pensava numa cano de Paul Simon, na qual ele ensinava cinqenta maneiras de deixar um amante. Podia ouvir a voz do cantor, repetindo o refro: Basta voc se libertar.
Dentro da pequena bolsa, do mesmo tom azul-safira de seu vestido de seda, estava o anel que Edward lhe dera. No dia em que recebera a proposta de noivado, ficara excitada e orgulhosa, mas no ntimo sabia que no fora exatamente o momento mais feliz de sua vida. Olhando para trs, j no estava certa se naquele momento sentira mesmo amor por Edward. Ser que fora apenas sua necessidade irrefrevel de segurana que a fizera aceitar o pedido?
Aparentemente, sim. Bem, pelo menos Clay Barton aparecera a tempo de faz-la pensar melhor no assunto.
Clay Barton. Desamparado, irresistvel. Todos os pensamentos de Tiffany insistiam em voltar-se para o inventor. Por que no conseguia tir-lo da cabea? Aquele homem tornara-se uma obsesso. Por mais que tentasse, ela no conseguia explicar por que. Droga. Homens bonitos no eram to raros assim, afinal. J conhecera muitos, at mesmo nos jantares que freqentava com Edward. Por que Clay? Por que agora?
Durante muitos anos, na faculdade, repetira seu adgio favorito:  to fcil apaixonar-se por um homem rico quanto por um pobre. Mas agora a frase j no lhe parecia to engraada. Nem to verdadeira.
Respirou fundo e virou no quarteiro onde se localizava a casa de Edward. A propriedade ficava entre uma manso de estilo vitoriano e uma residncia cuja fachada lembrava muito a arquitetura mediterrnea. A moradia do mdico, por sua vez, nunca parecera combinar muito com o estilo do dono. Linhas modernas chocavam-se profundamente com o comportamento conservador dele.
Edward recebeu-a  porta, vestido impecavelmente. Beijou-a levemente no rosto e depois conduziu-a para o interior da casa.
 Voc est linda.
 Obrigada.
 O azul lhe cai muito bem  ele continuou, tomando-a pela cintura e conduzindo-a para a sala de estar.
 Obrigada.
O ambiente era imaculado. Havia um bar completo, capaz de provocar a inveja de qualquer barman profissional. Nos alto-falantes escondidos na parede soavam acordes delicados de msica erudita.
 Gostaria de beber alguma coisa?  Edward ofereceu.
 gua mineral.
 Nada de vinho hoje, querida?  O mdico arqueou as sobrancelhas.
Tiffany meneou a cabea devagar. Quando lhe contasse tudo, queria estar com controle total sobre os sentidos.
Enquanto o via servir as bebidas, examinava tambm o requintado ambiente. Engraado... Apesar de tudo ser muito caro e sofisticado, os objetos transmitiam uma sensao fria, estril.
Ela pensou em Clay Barton e em seu apartamento bagunado. Teve que ocultar um sorriso. O que Clay pensaria da casa de Edward?
 Em que est pensando?  o mdico perguntou, sentando-se no sof.
 A que horas vo chegar seus convidados?  ela devolveu, evitando a resposta.
Ele olhou para o relgio de ouro que carregava no pulso.
 Sete e meia. Ainda temos uma hora. Isso  muito bom, porque eu queria discutir uma coisa com voc antes que eles cheguem. 
 Tambm tenho algo a discutir com voc, mas prefiro que nossa conversa fique para depois do jantar. 
 Como quiser.
 Quais so as novidades?
Um sorriso triunfante curvou os lbios do mdico.
 Indicaram meu nome para a presidncia da associao mdica. E o melhor de tudo  que conto com o apoio irrestrito do dr. Kemper e de toda a equipe dele. Nem preciso lhe dizer como isso  importante. Hoje presidente da associao, amanh cirurgio-chefe do Memorial...
 Fico muito feliz por voc.
 Podia demonstrar um pouco mais de entusiasmo  Edward brincou.  O que lhe parece ser a primeira-dama da medicina no Texas, minha querida?
 Eu preferia ser me  ela murmurou.
Edward encarou-a, a expresso contrariada.
 J discutimos esse assunto antes. Pensei que tivssemos chegado a um acordo.
 As coisas mudam. Tenho me sentido muito... maternal nos ltimos tempos  disse, por impulso.
Baixando a cabea, evitou o olhar penetrante de Edward e tentou parecer casual.
 Depois que Milicent morreu, tive de criar sozinho meus trs filhos. Aos quarenta e cinco anos, tenho oportunidade de finalmente desfrutar a vida... Alm disso, no vou ter tempo algum para me preocupar outra vez com crianas.
 Fico feliz por voc, de verdade. Sei quanto significa esse cargo na associao. Sempre foi seu objetivo.
 Mas quero compartilhar meu sucesso com voc, querida. Pense em tudo o que poderemos experimentar. Viajar, conhecer pessoas novas e interessantes, jantar nos melhores restaurantes. Tudo o que voc nunca teve.
Uma semana antes, aquela descrio teria provocado outro efeito em Tiffany. Mas, desde que conhecera Clay Barton e Molly, suas necessidades tinham mudado muito. Estabilidade era importante, sem dvida, mas agora ela queria mais. Tambm queria filhos!
Por que esperar at o final da noite para romper o noivado? Sabia que o relacionamento com Edward no teria nenhum futuro. Por que protelar o inevitvel? Engolindo em seco, ela abriu a bolsa e retirou de l o anel. Detestava magoar o mdico, mas simplesmente no podia continuar com aquela farsa.
 Quero devolver isso.  E estendeu a jia.
 Tiffany? O que est tentando me dizer?
Entrelaando os dedos, num gesto nervoso, ela desviou o olhar. No era capaz de suportar a angstia refletida nos olhos do noivo, principalmente porque era a responsvel por aquele sofrimento.
 Tiffany, olhe para mim.
Lentamente ela voltou a encar-lo, mas antes precisou respirar fundo para tomar coragem.
 Qual  o significado disso?  Edward mostrou o anel, colocando-o na mesa de centro.
 No posso me casar com voc.
 Por que no? O que aconteceu?
Tiffany teve que recostar-se no espaldar do sof. Sentia-se fraca e enjoada.
 Voc conheceu outra pessoa, no ?  ele acusou, arqueando as sobrancelhas com elegncia.
 No.  A imagem do peito musculoso de Clay surgiu na mente de Tiffany, como para desmenti-la. Ela meneou a cabea devagar, para afastar esse pensamento.  No  repetiu, mais para si mesma do que para Edward.
Aquela deciso no era baseada apenas na atrao sexual que sentira por um homem que, provavelmente, nunca mais veria. Era um assunto que dizia respeito apenas a ela e a seu noivo.
 No  aquele homem, ? O pai daquela criana que voc foi visitar duas noites atrs...
 Clay Barton?  Tiffany replicou, irritada.  No seja ridculo! A menina  minha paciente, nada mais. 
 Clay Barton...  O rosto do mdico se fechou.  Onde foi que ouvi esse nome? No  parente de Carlton Barton, o magnata do petrleo?
Clay? Parente de um dos homens mais ricos do Texas? Que piada.
 Duvido muito.
 Ento conheceu outro homem.
 No. Acontece que cheguei  concluso de que desejo muito ter filhos.
 Isso eu no posso lhe dar.
 Eu sei.  por isso que prefiro deix-lo livre. De qualquer forma, voc nunca precisou de mim.
 Isso no  verdade  ele protestou.  Preciso de voc.
 Vai acabar encontrando outra pessoa. Tem muito a oferecer.
O mdico tomou-lhe a mo afetuosamente.
 Oua, eu me preocupo muito com voc...
 Sinto a mesma coisa, mas infelizmente no  o bastante. Quero, ou melhor, preciso ter muito mais.
Os dois se entreolharam. Tiffany estava absolutamente convencida de que Edward desconhecia o sentido da palavra amor. Um instante depois, levantou-se.
 Acho melhor ir embora.
 E o que vou dizer a meus convidados?
 Diga o que quiser. Diga que rompemos o noivado. No importa.
Era s aquilo que o preocupava? O que diria aos convidados? Cus!
 E quanto a todos os arranjos? Os presentes?  ele perguntou friamente.
 Posso cuidar disso. Mando os presentes de volta. No se preocupe.
 No sei o que dizer...
 Deixei as chaves do carro esporte no contato. No acho justo ficar com ele, diante das circunstncias.
Edward encarou-a por um longo momento, como se quisesse dizer algo importante. Entretanto, limitou-se apenas a encolher os ombros.
 Se  assim que quer...
 Poderia chamar um txi, por favor?  Tiffany pediu ao empregado que esperava no hall de entrada.
O homem assentiu e desapareceu no interior da casa.
 No consigo acreditar no que est fazendo. Algo deve ter acontecido. Voc nunca foi to fria comigo.
Sem dvida Edward pensava assim. Era tpico. Provavelmente imaginava que tudo no passava de um plano para contrari-lo. Nada podia fugir ao estritamente planejado em sua vida.
 Sinto muito  ela lamentou. Naquele momento, ficou com vontade de chorar, mas conteve-se a tempo, mordiscando o lbio inferior.
 Ei...  Edward segurou-a pelo brao.  Isso no  o fim do mundo. Ns vamos sobreviver. Preciso de algum que me ajude com minha carreira, e voc quer um homem que lhe d filhos. Foi muito bom termos percebido isso antes do casamento.
 Sim.
 Bem, acho que no h mais nada a dizer. Se  realmente o que quer, prometo que ficarei fora do seu caminho.
 Obrigada. Se no se importar, prefiro esperar pelo txi l fora.
 Como quiser.
No instante em que a porta da casa fechou-se em suas costas, Tiffany sentiu que tirara um peso enorme do peito. Estava livre. Era uma mulher solteira e descompromissada. No prximo relacionamento, no procuraria apenas por um homem estvel, mas por algum que tambm quisesse lhe dar filhos.

Ao pensar mais uma vez em Tiffany Avery, Clay cerrou os dentes, irritado. Quando ligara, no final daquela tarde, a fim de convid-la para jantar, a simptica Lilly informara que sua chefe sara mais cedo, para ir a uma festa na casa do noivo. Ao ouvir aquilo, Clay finalmente entendera que era tolice continuar interessado por uma mulher praticamente casada.
 Esquea Tiffany  aconselhou-se em voz alta.  Voc precisa se preocupar com coisas mais importantes. Como cuidar de Molly e terminar a mquina recicladora. No perca mais tempo.
Clay olhava pela janela de seu velho carro, e como numa viso de sonho enxergou a bela mdica na porta de um casaro justamente naquele momento, usando um lindo vestido de seda azul. Era como se ele tivesse conseguido atra-la usando apenas a fora da mente.
Imediatamente, pisou no freio.
Seu corao batia como um tambor no peito. Oh, droga! Precisava de uma boa desculpa para explicar sua presena em West Over Hills. Nunca conseguiria convencer Tiffany a ajud-lo com Molly se a mdica descobrisse que ele dispunha de dinheiro suficiente para contratar mil babs.
Precisava arrumar uma boa histria. E rpido.
Aproximando-se da calada, Clay chamou em voz alta:
 Ei, boneca, quer uma carona? Servio de limusines Barton, a seu dispor.
Era apenas imaginao ou Tiffany pareceu feliz por v-lo? Ela aproximou-se do carro depressa, e Clay abriu a velha porta, que rangeu, como sempre.
 Mas que timo! Eu j estava esperando um txi h mais de meia hora.
 Deixe-me colocar Molly no banco de trs  Clay pediu, transferindo rapidamente o assento de beb.
S voltou a ligar o carro quando Tiffany j estava acomodada.
 O que est fazendo em West Over Hills?  ela perguntou, afivelando o cinto de segurana.
Pense, Barton, pense. Quando estiver em dvida, passe para a ofensiva.
 Por qu? Acha que no sou digno de freqentar esse bairro de esnobes?
Tiffany corou.
 No foi isso que eu quis dizer... Apenas imaginei que este seria o ltimo lugar em que o encontraria.
Clay tentou imaginar o que ela diria se soubesse que a manso em estilo mediterrneo que ficava a cinqenta metros dali era de sua irm...
 Para sua informao, vim at aqui para obter alguns conselhos sobre crianas.  Aquilo era verdade. Enquanto estivera na casa de Anne, aproveitara para pedir algumas dicas  empregada da irm. Descobrira at mesmo que a menina chorava tanto porque a me se esquecera de mandar seu urso de pelcia predileto.  Uma amiga minha trabalha como empregada na casa de uma famlia de ricaos. Eu lhe disse que era um pobre solteiro que no entendia nada sobre bebs. Mas, como voc no teve pena de mim, tive que procurar ajuda em outro lugar.
E o que ela estava fazendo naquele bairro? Ser que o tal noivo morava naquela manso? Ser que Tiffany era apenas outra caadora de fortunas?
Bem, de qualquer forma, a mdica ficava fascinante naquele vestido de seda. O material leve acentuava ainda mais as formas perfeitas, e a cor combinava com os olhos azuis, sem dvida ela poderia ter o homem que quisesse. Rico ou pobre.
 Onde est seu carro?  ele perguntou.
 No sou mais dona de nenhum carro esporte.
 O qu?
 Eu o devolvi para Edward.
Um sorriso curvou os lbios dele, que sentiu o corao acelerar-se de imediato.
 Quer dizer que seu noivado acabou?
 Ele no queria ter filhos  ela murmurou, encarando-o com um olhar hesitante.
 Homem tolo.
 Concordo.
Seguiu-se um silncio pesado.
 E como voc vai fazer para trabalhar?  Clay finalmente indagou.
 Acho que vou ter que alugar um carro.
 Isso pode sair muito caro... Ainda bem que consegui consertar essa banheira.
 Que bom. Voc precisa mesmo de um carro, com um beb em casa. Mas no pretendo ficar a p por muito tempo. Planejo comprar um automvel no prximo final de semana.
 Posso acompanh-la. Sou muito bom para negociar com vendedores malandros.
 Sua oferta  muito gentil, mas no quero incomod-lo.
 Acabei de ter uma idia ainda melhor. Por que no fica hospedada em meu apartamento por alguns dias?
Tiffany franziu as sobrancelhas, espantada, cruzando os brao sobre o peito como se quisesse se defender.
 A-acho que no.
 Por que no? Faz muito sentido.  Ele notara nitidamente a hesitao da mdica ao responder. Tiffany tinha pensado em aceitar! Estava certo disso. Bastava ver aqueles lindos olhos azuis.  Vamos l, isso a faria economizar muito com o aluguel do carro ou com txis. Se pretende comprar um veculo novo, acho melhor poupar algum dinheiro.
 No quero incomodar tanto...
Tiffany? Um incmodo? De jeito nenhum.
 Onde voc mora?  Clay perguntou, saindo do bairro nobre e pegando a estrada principal.
 Candleridge.
 Do outro lado da cidade?
 Sim.
  um longo caminho.
 Voc pode me levar s at seu apartamento. De l, pegarei um txi.
 Por que no fica conosco hoje?  ele tentou outra vez.  Ser mais do que bem-vinda. Alm disso, preciso preparar o jantar de Molly. Fiquei ocupado at agora, e a pobrezinha deve estar faminta.
Tiffany hesitou por, um momento.
 E-eu... bem, no posso ir trabalhar amanh vestida desse jeito.  Franziu as sobrancelhas e passou os dedos pela roupa de seda.
Aquilo era verdade, Clay admitiu. Vestida daquela forma, Tiffany poderia provocar uma sncope at mesmo num garoto de fraldas...
 Ora, isso no  problema! Posso lev-la amanh de manh at sua casa, para voc apanhar suas coisas antes de trabalhar. No me incomodo nem um pouco.
A insistncia acabou provocando um sorriso irresistvel.
Provavelmente ela acha que sou completamente doido, Clay pensou.
O interior do carro permaneceu em silncio por um logo perodo. Foi Tiffany que o rompeu:
 Tudo bem  concordou.  Ficarei em sua casa, mas sob uma condio.
 Sim?  Clay comeou a se dirigir para o apartamento.
 No quero que aquilo que aconteceu hoje pela manh se repita, sob nenhuma hiptese.
 O que quer dizer?  ele perguntou, fingindo inocncia.
 Nada de beijos.
 Ah! Mas assim vai ser muito chato...
 Estou falando srio. Acabei de romper com meu noivo e sinto-me muito vulnervel. A ltima coisa que quero no momento  me envolver outra vez. Aceito sua hospitalidade e vou passar algumas noites em sua casa
porque  conveniente. Alm disso, voc precisa de ajuda com Molly. Certamente no posso ignorar uma criana necessitada. Mas ser apenas isso. Entendeu?
Clay saudou-a com um gesto de cabea.
 Sim, madame. Tudo o que a doutora quiser...
Ao ouvir o tom irnico, porm, Tiffany engoliu em seco. Ser que estava cometendo o pior engano de sua vida?



CAPTULO V
Quando entrou no apartamento, Tiffany notou que Clay fizera uma faxina. J no havia mais nenhum material ao alcance da pequena Molly. Sem dvida o susto daquela manh fora grande. Aquele era um bom sinal. Ao menos ele levava a segurana da menina a srio.
 Sente-se enquanto preparo o jantar.
 Posso ajudar?
Clay examinou-a detidamente.
 Acho que voc no est... vestida apropriadamente para essa misso.
 Certo. Mas pelo menos deixe-me cuidar de Molly.
 Claro.
Tiffany tomou a menina nos braos, embalando-a cuidadosamente. Clay foi para a cozinha, acendendo as luzes  medida que ia passando pelos interruptores.
 Eu estava planejando fazer fil de peixe grelhado e batatas coradas. O que acha?
 No precisa ter nenhum trabalho extra por minha causa  Tiffany murmurou, seguindo-o de perto. 
 Ei, sou muito bom na cozinha!  Virou-se e encarou-a com um sorriso  Isso quando no compro comida pronta, o que acontece na maior parte do tempo.
 Tambm fao isso  ela confessou. Molly acariciou-a no rosto, provocando um sorriso.  Os dentinhos j esto aparecendo. Voc tinha notado?
 Para dizer a verdade, nem sei onde ficam os dentes de um beb  ele brincou, aproximando-se para examinar a sobrinha.  Olhe...  mesmo!
 Viu s?
Enquanto Clay trabalhava, Tiffany ficou sentada em uma cadeira, com a menina no colo.
 Voc vai sentir falta de seu velho estilo de vida?  Clay perguntou subitamente, com uma expresso estranha e impenetrvel.
Ela ergueu a cabea.
 O que quer dizer?
 Voc sabe... as festas chiques, gastronomia fina, todo aquele conforto ao qual deve estar acostumada...
Tiffany torceu o nariz.
 Depois de um ano freqentando aqueles jantares, juro que comida caseira  uma idia mais que maravilhosa.
 No vai sentir falta das coisas que seu noivo podia lhe dar?
Tiffany encolheu os ombros. Ser que Clay apenas sondava o terreno, para saber se ela se interessaria por um homem pobre? A idia no era absurda, mas precisavam conversar mais, para chegar a uma concluso definitiva.
 Tiffany?
 O qu?  Ela piscou, voltando  realidade ao ouvir a voz rouca de Clay.
 Voc ficou to sria! Em que estava pensando?
 Em nada  ela mentiu.
No estava preparada para compartilhar sua intimidade com Clay. Aquilo s tornaria as coisas mais difceis. Alm disso, no pretendia manter um relacionamento srio to cedo.
Mas, cada vez que olhava para aquele homem, era dominada por uma sensao forte, incontrolvel e desconhecida. O que era um grande problema.
Tentou no pensar muito naquele assunto, limitando-se a conversar sobre banalidades. Riram muito falando sobre filmes e programas de televiso, e minutos depois ela j descontrara. Parecia-lhe natural estar naquele apartamento, junto com aquele homem sedutor e a adorvel sobrinha. Ficou feliz a ponto de esquecer as circunstncias que a haviam levado para aquele lugar.
 O jantar est quase pronto  Clay anunciou.  Pode checar se as batatas esto boas, por favor?  pediu enquanto retirava a bandeja do forno.
 Claro.
Tiffany levantou-se e experimentou as batatas com um garfo. Satisfeita, usou uma escumadeira para tir-las do fogo e coloc-las sobre um prato com papel absorvente.
Clay, encostado no balco da copa, observava-a. Ela era uma mulher independente. E orgulhosa. Cada pequeno gesto comprovava isso. Por um instante, ele se perguntou que tipo de infncia produzira uma pessoa to forte.
Enquanto a mdica ajudava a colocar os pratos na mesa, Clay ps Molly na cadeirinha. A garotinha ria muito, como se fosse uma pequena rainha em seu trono de brinquedo.
Ele abriu um pote da comida infantil, que providenciara naquela tarde, despejando o contedo em um prato plstico.
 Posso aliment-la?  Tiffany pediu.
 Claro.  Clay entregou-lhe o prato.
Ao notar a comida, Molly abriu a boca e comeou a fazer rudos entusiasmados.
 Voc est com fome, corao?  Tiffany murmurou, apanhando uma colherada do creme de vegetais.  Gosta disso? Sim. Boa menina.
A cena era to emocionante que por um instante Clay sentiu o corao apertar-se. At aquele momento, nunca imaginara quanto desejava ter sua prpria mulher. Seu prprio beb.
Pare com isso, Barton. Precisa patentear sua mquina antes, a voz da conscincia o advertiu.
Alm disso, primeiro precisava ter certeza de que Tiffany estava interessada nele, no em seu dinheiro.
 Veja, Clay!  Ela riu ao notar que a garota tentava segurar a colher.  Molly quer comer sozinha!
 Deixe-a tentar, ento.
 Mas a baguna vai ser grande...
 Tudo bem. Ela  lavvel.
Os dois riram muito, assistindo s tentativas da menina.
 Sua sobrinha  adorvel!  Tiffany murmurou, esticando o corpo para limpar o pequeno rosto com uma toalha absorvente de papel.  Eu nunca tinha imaginado que um beb podia ser to divertido, mesmo trabalhando com eles h tanto tempo.
 Coma enquanto ela est distrada  Clay sugeriu, indicando o prato.  Se no aproveitar a chance, acho que quem vai ficar faminta ser voc.
Seguindo o conselho, ela comeou a se servir. Os msculos firmes do dono da casa flexionaram-se quando ele estendeu o brao para entregar a travessa de peixe, demonstrando o bceps poderoso e desenvolvido. Cus! Ela nunca tinha imaginado que o simples fato de jantar com um homem podia ser uma experincia to ertica...
Quando terminavam o jantar, o telefone tocou. Clay afastou a cadeira, e Tiffany suspirou, aliviada. Mais um minuto naquela mesa e seria capaz de beij-lo ali mesmo. Ser que devia passar a noite naquele apartamento?
 Al?
Tiffany levantou-se e comeou a limpar a mesa.
 Anne! Como vai? Sua sogra melhorou?
Ela tentou no ouvir a conversa, mas era uma cozinha pequena.
 Molly est tima. No se preocupe.  Clay colocou o fone entre o queixo e o ombro, encostando-se na parede.
Naquele momento, Tiffany abriu a mquina de lavar pratos, onde passou a colocar a loua do jantar.
 No... eu no chamei.
Ela notou que Clay parecia embaraado, principalmente por causa do olhar culpado que lanou em sua direo. Ser que estava assim por causa de sua presena naquela casa? O prximo comentrio refutou essa hiptese:
 Uma amiga minha est aqui, me ajudando com Molly... No. Voc no a conhece.
Clay virou-se de costas para continuar a falar, mas aquilo s aumentou seu apelo ertico.
 Ela  mdica. Sim... certo... tudo bem. Nos vemos na semana que vem, mana. Um beijo.  Desligou e virou-se em seguida.  Era Anne, minha irm  explicou.
Tiffany assentiu.
 Eu tinha percebido.
 Parece que a sogra dela no est indo muito bem...
 Sinto muito.
 Isso na verdade significa que vou ter que cuidar de Molly nos prximos quatro ou cinco dias.
Como se percebesse que estavam falando dela, a garotinha soltou um grito de entusiasmo. Agora sim, mostrava-se totalmente suja. Tiffany soltou uma risada e deu um passo, colocando-se diante da cadeira de beb.
 Certo, certo, no precisa gritar, querida. Vou deix-la limpinha em menos de um minuto.
 Tome cuidado com sua roupa  Clay advertiu, tarde demais.
Molly acabara de inclinar-se para a frente e passara os braos ao redor do pescoo de Tiffany. O belo vestido de noite ficou arruinado, mas a mdica no se importou. O calor do contato com aquela menininha era capaz de faz-la esquecer tudo.
 Vamos l, senhorita bagunceira, voc precisa ficar limpa e bonita de novo.
 Eu ajudo  Clay ofereceu-se.  J dei banho nela e sei como  complicado. Alm disso, voc tambm deve estar querendo tomar banho, no ?
Na verdade, no foi muito difcil cuidar da menina. Logo depois, os dois estavam livres.
 Molly confia em voc  ela comentou.
 Acha mesmo?  Ele a encarou, com ar pensativo. O perfume de violetas estava prestes a enlouquec-lo.
Precisava ter aquela mulher. No importava quanto custasse. E a pequena Molly iria ajud-lo a manipular melhor as emoes de Tiffany. Sem a menina, ele no teria nenhuma chance. Com certeza.
 Est brincando? Molly  louca por voc.
 Obrigado pelo cumprimento  ele respondeu. Baixando o olhar, observou a respirao controlada da mdica. Ser que tambm se sentia como ele? Clay engoliu em seco. Gotas de suor j inundavam sua testa.
Tiffany, por sua vez, parecia indiferente e distante. Como se fosse uma princesa de contos de fada, seu rosto permanecia altivo, controlado. A dra. Tiffany Avery era um modelo de frieza. Ser que existia alguma forma de modificar o comportamento glido daquela Branca de Neve?
 Tiffany...
Quando ela levantou a cabea, porm, Clay notou um brilho intenso e feroz nos belos olhos azuis. A mdica o encarava com o queixo erguido. Sem dvida, aquilo era desejo!
Um novo grito de Molly chamou a ateno dos dois.
 Acho que algum est com muito sono...  ele murmurou num tom brincalho, brincando com as bochechas da menina. Em seguida, apanhou a sobrinha no colo e dirigiu-se para a porta.  Tome seu banho. Vou colocar Molly na cama.
 Mas... o que eu vou vestir depois do banho?
Clay teve vontade de dizer nada, mas faltou-lhe coragem. A simples idia de ver Tiffany nua era capaz de fazer sua libido subir at o teto.
 Pode usar uma de minhas camisetas.
Logo depois, ela se trancava no banheiro. Olhou para o vestido sujo e no pde conter um sorriso. O que Edward pensaria se a visse naquela situao?
Ao tentar despir-se, notou que o zper emperrara. J estava quase dizendo uma imprecao quando ouviu uma batida  porta e viu a cabea de Clay aparecendo de relance.
 Desculpe. Eu no quis incomod-la. Trouxe a toalha e uma camiseta.
 timo... Mas ser que podia me ajudar com esse zper?
Os dois estavam parados diante do espelho. Tiffany virou-se de costas para Clay. Estudou-lhe o reflexo quando ele se aproximou, concentrado no zper emperrado. O rosto anguloso deixava transparecer um inegvel trao de inteligncia. Uma mecha de cabelos caiu-lhe sobre os olhos, e ele ergueu a cabea, surpreendendo-a. Um sorriso malicioso surgiu nos lbios carnudos. Imediatamente, Tiffany baixou os olhos.
Os dedos habilidosos logo conseguiram fazer o zper descer. Clay deliberadamente fez com que o fecho deslizasse muito devagar, acariciando-a levemente nas costas. Tiffany respirou fundo. Subitamente, todo o seu corpo tremia muito.
 Est com frio?  Clay perguntou, ainda com os dedos nas costas dela.
 Um pouco.
Ele fechou a porta com um chute.
 E agora? Melhorou?
Claro que no. Agora ela se sentia completamente acuada. No havia nem mesmo Molly para distrair a ateno dele. Se virasse o corpo naquele instante, provavelmente sucumbiria ao abrao de Clay. Achava a idia muito atraente, o que a espantava ainda mais.
As coisas aconteciam depressa demais entre os dois. Tiffany rompera um noivado naquela mesma noite, e agora estava no banheiro de outro homem, sentindo os dedos grossos em carcias enlouquecedoras.
Clay abriu os dedos e colocou toda a palma da mo nas costas de Tiffany, fazendo-a engasgar.
 O que foi?  ela sussurrou.
 Estou segurando seu vestido. Parece que o zper quebrou de vez.
 Oh...
Naquele momento, Tiffany j no sentia nem um pouco de frio. Pelo contrrio, sua pele parecia queimar, e seu corpo todo era invadido por uma estranha e deliciosa sensao. Ser que o inventor sentia a mesma coisa? Ela nunca se sentira to feminina, to desejvel.
 Onde est Molly?  perguntou com voz trmula.
 No bero. Mas aquela menina  engenhosa demais. No posso deix-la sozinha por muito tempo.
 Talvez seja melhor verificar como ela est. Obrigada por me ajudar com o zper. Posso me arranjar sozinha daqui em diante.
 Tem certeza?
 Oh, sim.  Na verdade, tudo o que ela queria era que Clay sumisse daquele banheiro o mais rpido possvel. 
 Tudo bem.
Ele saiu em seguida, fechando a porta lentamente. Ouviu o estalo da fechadura e sorriu sozinho. A bela e impassvel dra. Avery estaria to desorientada quanto ele por causa de um desejo incontrolvel?
A garganta dela estaria seca? Ser que seu corao tambm batia rpido? Seu corpo tremia da cabea aos ps ante a simples perspectiva de fazer amor com ele? Sem dvida, Clay precisava muito de uma ducha gelada. De outra maneira, no conseguiria manter as mos longe dela.
Sabia que a resposta para suas perguntas aparentemente era positiva. Mas ento, por que Tiffany insistia em erguer barreiras entre os dois? Se ao menos conseguisse persuadi-la a falar sobre si mesma, contar sua histria, falar sobre o rompimento do noivado... Ento, talvez pudesse comear a entender a mente complexa daquela mulher. Precisava descobrir urgentemente uma forma de desvendar o enigma chamado Tiffany Avery. E precisava faz-lo quanto antes.

CAPTULO VI
Clay sentou-se no sof com Molly nos braos, olhando sem muito interesse para o aparelho de televiso. Sentia-se prisioneiro de Tiffany, uma estranha que nem percebia o poder que exercia sobre ele.
Por muito tempo, evitara relacionamentos mais srios, com a desculpa de que compartilhar a intimidade era algo emocionalmente complexo, que consumia muito tempo. Agora precisava morder a prpria lngua.
Apenas dois dias haviam se passado desde que Molly e Tiffany tinham transformado sua vida num tormento. Pela primeira vez em quatro anos alguma coisa era-lhe mais importante do que as invenes.
Ouviu o chuveiro e engoliu em seco. Sua mente viajou de imediato da sala de estar para o banheiro, pintando um quadro atraente, no qual tomava um delicioso banho quente com Tiffany...
Gemendo, fechou os olhos. Podia visualiz-la, completamente nua sob o jato de gua, sensual como uma deusa grega. A imagem era to vivida, to delirantemente real, que Clay chegou a morder o n do dedo indicador at doer.
Naquele momento Molly chutou-o no estmago, fazendo-o retornar abruptamente  realidade.
 Ufa!  Clay expeliu o ar e todo o seu desejo desapareceu de forma instantnea.
Molly encarou-o com um ar angelical e abriu seu melhor sorriso.
 Danada.  Ele sorriu e ajeitou a sobrinha no colo.  Sabe que pode se tornar uma grande lutadora de carat?
Ela meneava a cabea, rindo, como se entendesse cada palavra do tio.
 	Vai fazer isso mesmo? Bem... tenho pena do primeiro garoto malandro que tentar ser espertinho com voc num baile da escola...
O chuveiro finalmente foi desligado, e Clay sentou-se mais ereto. Tiffany podia sair do banheiro a qualquer momento, vestindo apenas uma camiseta. Sem dvida, era uma viso que ele no queria perder.
  melhor me chutar outra vez. Seno seu tio  capaz de fazer uma bobagem.
Tiffany vestiu a camiseta e enxugou os cabelos. Depois de apanhar o vestido de seda, abriu a porta do banheiro e saiu para o corredor.
Encontrou Clay sentado no sof, com a pequena Molly nos braos. Ele brincava animadamente com a sobrinha, inclinando-se e soprando no umbigo da menina, que ria de forma delirante.
Foi ento que uma emoo tomou conta do peito de Tiffany. Uma emoo que ela no podia descrever.
Clay ergueu a cabea. Sua expresso era terna e simptica.
 Oi  ele disse numa voz rouca e profunda.
 Oi.  Tiffany sorriu.
Os olhos cinzentos encontraram os dela, e no mesmo instante Tiffany sentiu que corava.
Colocou o vestido sujo na cadeira onde deixara a bolsa. Pela centsima vez desde que concordara em dormir no apartamento, perguntou-se se aquela fora uma deciso sbia. Podia at ser um arranjo conveniente, mas sem dvida no era nada prudente.
 Sente-se, por favor.  Ele inclinou a cabea para indicar um lugar no sof, a seu lado.
Com as pernas trmulas, ela aceitou o convite. 
 Posso segur-la?  perguntou, estendendo os braos para a menina. 
 Certamente. Clay entregou Molly, que parecia achar o colo da mdica muito confortvel, pois adormeceu quase de imediato.
 Nossa, ela estava mesmo com sono!
Clay olhou para o relgio de pulso.
 J passa das nove. E hora de lev-la para a cama. Anne geralmente a coloca para dormir mais cedo, por volta das sete e meia.
 Sua irm deve ficar muito orgulhosa por ter um irmo to atencioso.
Tiffany notou que o cumprimento causara um prazer indisfarvel em Clay.
 Eu no teria conseguido nada sem voc. Sua ajuda foi realmente inestimvel. Tem sido um anjo.
Por um instante, ela quis dizer quanto aqueles dois tinham sido importantes em sua vida. Se no tivessem aparecido inesperadamente, talvez nunca percebesse quanto era fundamental seu desejo de ser me. Podia ter se conformado com um casamento frio e conveniente com Edward. Tio e sobrinha tinham-na feito recuperar a liberdade. Devia muito a ambos.
 Acho que agora ela no acorda mais  Clay sussurrou, inclinando-se para Molly.  Vamos coloc-la logo no bero.
 No consigo parar de reparar como voc  carinhoso com ela.  incrvel.  Tiffany levantou-se cuidadosamente e seguiu Clay at o quarto, onde estava o bero da menina.  E Molly sempre parece feliz a seu lado.
Ele encolheu os ombros.
 Minha irm precisou de mim. O que mais eu podia fazer? Negar um favor?
Tiffany meneou a cabea. No falava de um favor, mas do carinho que aquele homem nutria pela sobrinha. Podia ser irresponsvel, sonhador, mas tambm era o homem mais gentil que conhecera.
 Voc e sua irm devem ser muito unidos.
 Bem...  ele murmurou, embaraado. Se comeasse a falar sobre sua vida familiar, seria mais difcil manter a mentira. E no se sentia preparado para revelar sua verdadeira identidade. Ainda no.  Ns no nos vemos com a freqncia que gostaramos.
 Que pena.
Clay precisava mudar de assunto antes que a conversa enveredasse por tpicos mais pessoais. Era hora de virar a mesa.
 Voc tem irmos ou irms?  perguntou.
 No.  Tiffany meneou a cabea, a expresso triste.
 Sempre senti muita falta disso.
  mesmo. No h nada como a famlia.  Os dois encararam-se por um longo momento. Depois, saram do quarto para no acordar a menina.  Voc pode dormir na minha cama. Fico com o sof.
 No seja tolo. Posso me ajeitar muito bem no sof.
 Acontece que s vezes sofro de insnia  ele informou.  Quando isso acontece, assisto televiso at tarde ou fico trabalhando. Detestaria atrapalhar seu sono.
 Voc no vai me incomodar, prometo. Eu me sentiria muito mal se o tirasse do prprio quarto.
Por um instante, ele ficou tentado a sugerir que compartilhassem a cama. Mas ainda no era o momento certo.
 Gostaria de beber alguma coisa?  perguntou. Queria descobrir mais sobre Tiffany.  Tenho leite, suco de laranja e refrigerante.
 Um copo de suco seria muito bom.
Ela simplesmente sorriu, mas para Clay foi como se mil trombetas tocassem de maneira triunfal.
Foi at a cozinha, mal podendo disfarar a alegria. Serviu dois copos de suco de laranja e voltou para a sala, onde encontrou Tiffany trocando os canais da televiso com o controle remoto.
 Vai passar um velho filme de Cary Grant no canal 35 s dez horas  ela comentou, cruzando as pernas.  Uma comdia genial. Quer assistir?
 Claro, eu adoro filmes antigos. Principalmente as comdias.
 Eu tambm  ela murmurou.
Tiffany parecia uma colegial, com aquela camiseta larga, e aquilo o excitava.
Estendeu o copo de suco e comeou a acomodar-se no tapete. Tiffany, porm, indicou o sof.
 Sente-se aqui.
 Tem certeza?  A pulsao dele comeou a galopar. Mantenha o controle, Barton. Voc j no  mais nenhum garoto!, ele advertiu-se severamente. 
 Quando decidiu se tornar mdica?  perguntou, tirando os sapatos e esticando as pernas.  Bonita como , podia ter escolhido a carreira de atriz ou de modelo.
 Aparncia no  tudo. Nem sempre se pode contar com ela.
 E sempre se pode contar com a medicina?
 Oh, claro que sim. Sempre vai existir gente doente.  Tiffany fez uma pausa.  Sei que voc esperava que eu dissesse que adoro cuidar de crianas, e isso  verdade, mas no foi o motivo que me fez escolher essa carreira.
 E qual foi o motivo?
 Ser capaz de me sustentar.
 Ah...
Um arrepio de apreenso percorreu o corpo dele. Ser que Tiffany se interessava apenas por dinheiro? Talvez j soubesse quem ele era, e estivesse fingindo sentir-se atrada apenas para despistar. Afinal de contas, a fortuna da famlia Barton faria o dr. Edward Bennet ficar vermelho de vergonha. Era alarmante considerar uma hiptese como aquela.
 Parece que sou mercenria, mas  a verdade. Felizmente, durante a faculdade comecei a gostar muito da prtica mdica.
 Dinheiro  realmente to importante para voc?  ele perguntou de forma suave, temendo antecipadamente a resposta.
 Eu costumava pensar que sim. Agora mudei um pouco de idia. O que importa de verdade  a segurana.
 Como?
 Tive uma infncia muito difcil. Meu pai vivia com os ps no ar. Na verdade, a cada ano que passava ficvamos cada vez mais pobres.
Clay sorveu um gole de suco e esperou. Num espao de poucos segundos, sua opinio sobre Tiffany Avery modificara-se dramaticamente. Apesar de nunca ter passado por necessidades, podia entender muito bem sobre o que ela falava.
 Minha me no pde estudar muito. Por isso, s conseguia os trabalhos mais pesados nas vrias cidades onde moramos. Serviu mesas, limpou casas... chegou a trabalhar num posto de gasolina.  Enquanto contava a histria, ela mantinha um olhar glido e distante.  Papai nos fazia mudar de cidade o tempo todo. Sempre que eu comeava a ter amigas na escola, ele inventava um novo projeto mirabolante...
 Nem posso imaginar isso  Clay comentou, pensando, envergonhado, na enorme manso em que fora criado.
 Uma vez, tivemos que viver numa tenda. Meu pai nunca teve um emprego de verdade. Estava convencido de que um dia ficaria rico...
A tristeza invadiu o corao de Clay. Fora educado com viagens  Europa, colgios caros e o melhor que a vida podia oferecer. Mas a pobre Tiffany tivera que suportar a mais abjeta misria.
 Aposto como seu pai nunca encontrou um pote de ouro, no ?
 Quando eu tinha quinze anos, ele sofreu um ataque cardaco fulminante. No nos deixou nada, a no ser as despesas com o funeral. Eu e minha me tivemos que lutar muito para continuar vivendo, e a partir daquele momento jurei a mim mesma que nunca mais ia passar por necessidades, no importava o que tivesse que fazer. 
Clay limitou-se a assentir com um gesto de cabea, deixando-a prosseguir.
 Estudei com afinco durante o colgio, e por isso acabei conseguindo uma bolsa de estudos para a universidade. Escolhi o curso de medicina porque geralmente os mdicos levam uma boa vida. Tambm jurei que nenhum filho meu passaria pelos sofrimentos que suportei na infncia.
 Foi isso que a atraiu em seu ex-noivo, no foi? Quero dizer... o fato de ele ser um homem capaz de lhe oferecer uma vida estvel.
Tiffany suspirou.
 Eu nunca tinha pensado nisso at hoje  noite. Mas sim, acho que sim. Edward era tudo o que meu pai nunca foi. Bem-sucedido, responsvel...
 Ento por que voc rompeu o noivado?
 Ele no queria ter filhos.  A voz dela era quase um sussurro.  E, depois que vi voc e Molly, depois que percebi o carinho que os unia, cheguei  concluso de que no podia me casar com um homem que no quisesse crianas.
 Voc amava Edward?  ele sussurrou, prendendo a respirao.
 Amor? Ah...  Tiffany soltou uma risada amarga.  Como Tina Turner diz naquela cano, o que  que o amor tem a ver com isso?.
 Ora... tudo!  Ele a encarava, surpreso.  Creio que  por isso que as pessoas se casam.
 Meus pais eram loucamente apaixonados, e veja s o que aconteceu. Mame adorava tanto meu pai que era capaz de perdoar qualquer defeito. Sempre que ele chegava com um novo plano mirabolante, ela o encarava com carinho e compreenso, e chegava at mesmo a incentiv-lo.
 Quando se ama algum, deve existir confiana  Clay ponderou.
 Mesmo que a pessoa amada desaponte constantemente?  Tiffany replicou, seca.  Acho que no.
 Ento continua acreditando que dinheiro  a base ideal para um relacionamento?
 No. Eu nunca desejei riqueza. Verdade. S queria ter um pai que fosse trabalhar todas as manhs e colocasse alguma comida na mesa. S queria viver numa casa modesta, fazer dezenas de amizades e nunca ter que suportar a solido, a fome ou a misria.
Uma lgrima escorreu pelo rosto bonito.
 Ei, calma...  ele a confortou, passando o brao ao redor de seu ombro. Era bom toc-la, muito agradvel.  Est tudo bem agora. Voc  mdica, tem um lugar para viver e boa comida na mesa.
 Mas ainda no tenho uma famlia.  Ela suspirou.
 Ainda somos apenas eu e mame.
 D tempo ao tempo  ele sussurrou, secando a lgrima no rosto de Tiffany com as costas da mo.  Tenho certeza de que vai atingir todos os seus objetivos.
 Eu no queria incomodar voc. Afinal, quem sou eu para reclamar assim?  Encarou-o fixamente, ajeitando os cabelos.  Acho que as coisas tambm no foram nada fceis para voc...
 No tem problema. Pode chorar no meu ombro quantas vezes quiser.
Clay agora segurava-a junto ao peito, sentindo o calor envolvente daquele corpo maravilhoso. Como podia ter vivido trinta anos sem ela?
 Voc est me ensinando muito sobre a vida  Tiffany confessou.
 Eu? O qu, por exemplo?
 Que estabilidade pode vir de outras fontes, no apenas do dinheiro. A forma como trata Molly me fez ver isso. Voc  um homem honrado, Clay Barton.
 Bem...
Ele se sentiu culpado. No sabia como responder. Seu dilema era aterrador. Se confessasse a verdade, arriscava-se a perd-la. Mas como podia manter a farsa naquelas circunstncias?
 Conte-me sobre sua infncia. Por que se transformou num solteiro em vez de tornar-se um pai de famlia?
Clay precisava de algum tempo para formular melhor as idias, e descobrir qual seria a maneira adequada de contar tudo.
 Estou obcecado com o reciclador  murmurou, pensativo. Na verdade estava mesmo, pelo menos at conhecer uma certa pediatra de cabelos negros.  Por isso no achei justo me casar cedo. Acabaria negligenciando a famlia enquanto no tivesse desenvolvido completamente meu invento.
 Isso foi muito sbio de sua parte. Uma pessoa no pode pensar em filhos at estar pronta para sacrificar os prprios sonhos em funo da famlia.
 Voc vai ser uma grande me.
 Pensa mesmo assim?
 Claro!
 Voc nunca responde quando pergunto sobre sua infncia...  Ela ergueu a cabea e encarou-o. Parecia to inocente, to ingnua. O aroma de violetas penetrava nas narinas de Clay, provocando um efeito entorpecedor.  Anne  sua nica irm? Como so seus pais? Onde foi que cresceu?
Mais uma vez a situao se tornou delicada. Ele sabia navegar em guas perigosas, e precisava faz-la desistir daquele assunto.
 Veja  despistou, indicando a televiso com a cabea.  O filme est comeando.
Apanhando o controle-remoto, aumentou sensivelmente o volume.
 Ora, esquea o filme. Nossa conversa est to boa...  Tiffany pediu, colocando a mo espalmada sobre o peito forte.
Clay engoliu em seco.
 Espere um pouco. Preciso ir ao banheiro, mas volto num minuto.
Pela primeira vez, ela parecia relaxada. Sentira-se bem o bastante para revelar toda a verdade sobre a prpria vida, e a recproca no acontecia.
Clay fechou a porta do banheiro e encostou-se na parede. Realmente, fora muito bom sair da sala antes que as coisas escapassem ao controle. Nunca sentira tanta vontade de fazer amor com uma mulher.
Mas, se ela soubesse a verdade, continuaria a admir-lo?
Caminhando at a pia, lavou o rosto com gua fria, para clarear as prprias idias. Como as coisas haviam chegado quele ponto?
Tiffany observou-o desaparecer pelo corredor, mordiscando ansiosamente o lbio inferior. Por que Clay sempre evitava perguntas sobre a infncia? O que estaria escondendo? Fora honesta ao contar tudo. Ento, por que o inventor no se abria? Sua infncia no podia ter sido pior do que a dela...
Por outro lado, talvez houvesse um aspecto positivo naquela relutncia. As coisas estavam acontecendo muito depressa. Minutos antes, Tiffany quase cara nos braos fortes.
Se aquilo no fosse intimidade, ento j no sabia mais o que pensar. Mesmo depois de passar um ano com Edward, jamais havia compartilhado aquele tipo de situao.
Os pensamentos sucediam-se em sua mente. E, como Clay demorou muito a voltar, ela acabou adormecendo, embalada pelo ritmo frentico dos dilogos do velho filme.
Algum tempo depois, um som agudo a acordou. Confusa, Tiffany sentou-se de imediato. Onde estava? Piscando repetidas vezes, examinou atentamente o ambiente. Oh, sim... o apartamento de Clay Barton.
Olhou para o relgio de pulso e constatou que eram duas e meia da manh. As molas do sof rangeram quando se virou, ao ouvir outra vez o mesmo som que a despertara.
 Clay?
A cabea dele ergueu-se de imediato. Havia um sorriso adorvel em seus lbios.
 Desculpe. Acordei voc?
 O que est acontecendo?
 Acho que finalmente ficou pronto  ele sussurrou, como se duvidasse das prprias palavras.  Investi quatro anos de minha vida nesse projeto, e finalmente atingi a perfeio.  Passou a mo sobre o tampo da mquina com uma expresso sentimental.  Mal posso acreditar.
  incrvel...  O pai dela jamais realizara algum de seus vrios sonhos.
Talvez Clay fosse diferente, afinal. Talvez fosse um visionrio genial e no apenas um sonhador.
 Quando comecei esse projeto, queria criar algo para ajudar a preservar o meio ambiente. Estava preocupado com a destruio das florestas tropicais, o buraco na camada de oznio... Por isso, decidi fazer minha parte.
  um nobre objetivo.
 Est pronta para o primeiro teste?  ele perguntou, sem tirar as mos da mquina.
 Vai mesmo compartilhar este momento comigo? No preferia que seus pais, ou sua irm, estivessem aqui?
 No posso pensar em ningum melhor do que voc.
As palavras fizeram-na corar. Era a coisa mais importante da vida dele. Que gesto gentil! Sentiu-se tocada.
 Fiz um teste seco. Foi isso que a acordou. Agora est tudo pronto para experimentarmos com lixo de verdade.  Os dois sorriram.  Estou nervoso como um garoto...
 Confio muito em voc. Vai dar certo.
 Obrigado.  Os cabelos despenteados davam-lhe uma aparncia leve e juvenil.  Vamos l, ento. Tenho certeza de que encontraremos algo apropriado no cesto de lixo.
Clay levantou-se e caminhou at a cozinha, voltando de l um instante depois com um saco de papel na mo. Obviamente recolhera alguns detritos no lixo e usava aquela embalagem para carreg-los.
 Certo  ele murmurou, arfante.  Vamos comear a alimentar a mquina.  Colocou o saco de papel sobre a mesa e abriu um receptculo no reciclador.  Uma coisa de cada vez. No quero forar muito o prottipo.
Tiffany pegou uma garrafa plstica de gua mineral e colocou-a no receptculo.
 L vamos ns!  Ele abaixou uma alavanca e a mquina rangeu como um triturador de lixo.
Em seguida, ela colocou uma lata de alumnio. Clay apertou um boto luminoso verde. A mquina emitiu um som diferente do primeiro.
 Agora tente o vidro  instruiu.
Cerrando os dentes, Tiffany procurou no saco at encontrar uma garrafa de refrigerante.
 Tem certeza? 
Ele assentiu.
 Coloque-a naquele tubo, por favor.
 Esse?
Os dois se encararam e sorriram. Tiffany colocou a garrafa no local indicado.
Dessa vez, o boto que Clay apertou era amarelo, localizado ao lado do verde. Mais uma vez o rudo do reciclador foi diferente, uma espcie de guincho agudo.
 E agora?  Tiffany perguntou.
 Reze para que tenha funcionado.
Os dois prenderam a respirao, aguardando ansiosos. Vrias luzes acendiam-se e se apagavam no painel, onde havia um boto giratrio semelhante queles que marcam o ciclo numa lavadora de roupas. Finalmente, o ciclo se encerrou e as luzes se apagaram.
Clay ajoelhou-se no cho e abriu uma das portinholas da parte frontal do reciclador. De l, extraiu uma bolota slida de plstico, de aproximadamente dois centmetros de dimetro.
 Aqui est o primeiro.  Passando a bolota para Tiffany, abriu a segunda portinhola.
O plstico ainda estava quente. Ela notou, estupefata, que no havia resduo algum no material translcido.
 Aqui est o alumnio.  A lata fora transformada numa fina folha de metal, do tamanho de papel de carta.
 Inacreditvel!  O entusiasmo dela era genuno, e aumentou ainda mais o sorriso de Clay.
 E agora, para terminar...  ele respirou fundo.
Depois de erguer uma tampa na parte superior, retirando de l um cilindro longo de ao, suspirou aliviado. A substncia dentro do tubo tinha um aspecto semelhante ao de uma areia cintilante.
 Vidro?  Tiffany arqueou as sobrancelhas, maravilhada. Clay assentiu.
  o melhor que se pode conseguir. Mas o material tem que voltar a ser fundido depois.
 Isso  extraordinrio! Oh, estou to orgulhosa de voc!
Ela passou-lhe os braos ao redor do pescoo e beijou-o no rosto.
Embora tivesse sido pego de surpresa, Clay reagiu rpido, largando o cilindro sobre a mesa e envolvendo-a imediatamente num abrao.
Tiffany engoliu em seco, chocada diante da intensidade da reao. Logo os lbios viris tomaram os seus, como uma avalanche... de forma incontrolvel, magnfica.
Ela nunca fora beijada daquele jeito.
Mos firmes acariciavam-na nas costas, e a cada instante Clay puxava-a mais para junto de si. Tiffany entregou-se completamente. Desejava ser tocada por ele.
Inundou-se de desejo. Queria ser possuda por aquele homem, queria que seus corpos se tornassem um s. Nunca se entregara a algum. Naquele momento, porm, todas as suas dvidas se dissiparam. Desejava mais, muito mais!
Sua mente, porm, trabalhava depressa. Por isso, um pensamento a dominou assim que Molly comeou a chorar no quarto.
No podia entregar-se a um homem que no confiara nela o bastante para abrir-se. O choro da menina, portanto, impediu-a de cometer um ato impensado, que poderia arruinar sua vida.
Empurrou Clay para longe, livrando-se do abrao, e correu at o bero de Molly. Precisava de tempo. Tempo para respirar.
E, principalmente, tempo para pensar com clareza.



CAPTULO VII
O som pesado dos passos de Clay no corredor correspondia  intensidade das batidas do corao de Tiffany.
Correndo para o meio do quarto, ela segurou Molly apertada contra o peito e manteve os olhos fixos na porta. Como poderia encar-lo? O que iria dizer?
Os passos pararam subitamente. Um instante depois, a maaneta girou e a lingeta da fechadura abriu-se com um estalido. A garganta de Tiffany secou.
 Est com medo de mim?  ele perguntou, encarando-a com um olhar fixo e impenetrvel.
Ser que  isso mesmo?, ela se perguntou.
Clay era um paradoxo. Embora parecesse franco, dava sempre a impresso de esconder algo. Embora fosse um sonhador, era muito diferente do sr. Avery. A mquina genial que inventara provava isso.
 Tiffany?
Ela no respondeu.
Com dois passos Clay venceu o espao que os separava. Erguendo uma das mos, segurou-a pelo queixo e forou-a a encar-lo.
 Est com medo de mim?  repetiu.
No. No fundo, ela sabia que no era medo o que sentia. Pelo menos no em relao a Clay. Talvez estivesse com medo, sim, mas da reao que aquele homem era capaz de provocar em seu corpo.
 No  sussurrou.
 Ento por que fugiu de mim?  Tiffany encolheu os ombros com desnimo, incapaz de expressar o que pensava.  Eu nunca a foraria a fazer nada que no quisesse.
 Sei disso.
 As coisas ficaram um pouco quentes l na sala, um tanto fora de controle...
 Sim.
Molly estendeu o brao e acariciou a orelha de Tiffany. Os dedos da menina eram suaves como uma brisa.
 S vim at aqui para dizer que voc est completamente segura, e se quiser pode voltar a dormir.
Mas ser que ela queria mesmo ficar longe dos braos daquele homem? Essa era a pergunta crucial.
 Obrigada.
Clay tomou-a pela mo e conduziu-a at a cama.
 Fique aqui  murmurou, puxando o cobertor.
Ainda segurando Molly, ela deitou-se, colocando em seguida a menina a seu lado. Clay cobriu as duas e acendeu o abajur no criado-mudo, sentando-se numa cadeira ao lado.
 Voc no vai dormir?  Tiffany sussurrou.
Ele meneou a cabea negativamente.
 Voc precisa mais de descanso do que eu. Precisa trabalhar amanh, no  mesmo?
Tiffany puxou a coberta e concluiu que era melhor no discutir. Respirando profundamente, ajeitou Molly entre dois travesseiros e finalmente preparou-se para voltar a dormir.
Ainda podia ouvir o rumor da respirao de Clay. Instantes depois, porm, ele se levantou e voltou para a sala, com passos leves.
Naquele momento, uma questo dominou a mente de Tiffany. Finalmente encontrara um lugar onde desejava ficar. Mas teria coragem de fazer aquilo? Ou ser que o medo a paralisaria completamente, mantendo-a sozinha?
Assim que surgiram os primeiros raios de sol, Clay permaneceu parado por alguns instantes, observando a cama onde Molly e Tiffany dormiam. Durante a noite, duas coisas importantes haviam acontecido.
Depois de anos de pesquisa rdua e muito trabalho, finalmente conseguira terminar sua to sonhada mquina. Sentia no peito uma enorme sensao de dever cumprido.
E Tiffany compartilhara de sua alegria.
Ao pensar nela, Clay sorriu na penumbra. Quando tinham se beijado, algo inacreditvel acontecera. Ele chegara a sentir dor fsica, tamanha era a necessidade de fazer amor. Na verdade, aquela necessidade ardente suplantava os limites meramente fsicos. Queria ter Tiffany por inteiro. No apenas possuir aquele corpo maravilhoso, mas conquistar tambm seu corao.
Precisava terminar logo com aquela farsa. Revelar que era Clay Barton, o herdeiro de um dos maiores magnatas do petrleo. Seu dilema, entretanto, era apenas um: como fazer para no afast-la quando contasse toda a verdade?

 Al, querida.
 Oi, me.
A voz da me de Tiffany no mudara nem um pouco, e ela sorriu ao not-lo. Dois anos antes, Stella Avery finalmente conseguira uma promoo e tornara-se gerente nacional de vendas da rede de lojas de departamento onde trabalhava. Aquilo a forara a mudar para a Carolina do Sul. Embora Tiffany agora no a visse com a freqncia que desejava, ficara muito feliz com seu sucesso profissional.
 Como esto indo as coisas, filha?
 Engraado, por algum motivo eu sabia que ia perguntar isso...  Tiffany caoou carinhosamente. Estava sentada  escrivaninha do consultrio.  Tenho muitas novidades para lhe contar.
 Que bom. Mas antes deixe-me dizer uma coisa. Liguei para verificar se voc e Edward estaro livres na semana que vem. Vou viajar para Fort Worth, onde vamos abrir uma nova filial, e gostaria que jantssemos todos juntos.
Tiffany mordiscou o lbio inferior. Fora apenas na noite anterior que rompera com Edward? Nossa, parecia quase um sculo...
 Terminei o noivado  revelou simplesmente.
Stella ficou calada por um momento, como se no soubesse o que dizer.
 Bem... e como se sente?
 Feliz.
Para surpresa de Tiffany, a me aceitou a notcia com facilidade.
 Nunca achei que Edward fosse o homem certo para voc.
 Por que nunca me disse nada?
 Para ser acusada de interferir? No, voc  uma mulher adulta, Tiffany Avery, e no posso lhe dizer como deve dirigir a prpria vida.
 Por que voc no gostava dele?
 Eu no disse que no gostava dele, mas tinha medo de que voc se casasse com Edward apenas por causa da segurana material. Observei muito bem como tentava se convencer de que estava apaixonada...
 Como ficou sabendo disso?  Tiffany recostou-se na cadeira.
 Garota tola. Eu j estive apaixonada, sabia? Sei muito bem reconhecer um sentimento autntico. E voc, minha querida, nunca pareceu sinceramente interessada em Edward. Bastava olhar para ver que no havia amor entre vocs.
 No sei se acredito em amor, mame  Tiffany murmurou, pensando em Clay. Como podia amar um homem que mal conhecia?
 Bobagem. Isso  conversa fiada e voc sabe muito bem. Apenas tem medo de se entregar ao amor, nada mais.
Tiffany passou os dedos entre os cabelos. Talvez a me estivesse certa. Talvez tivesse medo de se apaixonar, perder o controle e tornar-se prisioneira das prprias emoes. Seria por isso que escolhera Edward? A idia era desconcertante.
 Voc sempre soube como eu me sentia em relao a seu pai  Stella disse suavemente.  Ele era minha alma gmea. Fazia parte de mim.
 E apesar disso ele a deixou na misria e quase nos destruiu quando morreu. No quero sofrer daquele jeito outra vez.
 Querida... Voc ainda no entendeu direito. Sem experimentar algum sofrimento, voc jamais conhecer a verdadeira felicidade. Eu sabia muito bem que viver com um homem como seu pai, um sonhador incorrigvel, tinha seus altos e baixos. Mas o que voc no compreendeu  que eu era feliz por confiar totalmente nele.
 Quando ouo voc dizer isso, tenho a impresso de que estamos num mundo de fantasias...
 Talvez.  Stella parecia magoada.  Mas casar com seu pai foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Alm disso, se eu no tivesse feito isso, voc nunca teria nascido, esqueceu?
Tiffany permaneceu calada. O que poderia dizer? Ser que um dia conheceria um amor como aquele? Ou, para ser mais exata, ser que queria conhecer?
 No se preocupe, querida  a me continuou.  Minha intuio me diz que voc vai encontrar o homem certo bem depressa.
Ela quase contou sobre Clay, mas controlou-se no ltimo instante. Era melhor esperar para ver como as coisas se desenrolariam. Preferiu mudar de assunto e passou a falar sobre coisas mais banais, alm de combinar um jantar com a me na semana seguinte.
 Bem, filha, acho que voc realmente tomou a deciso certa a respeito de seu noivado com Edward. Nosso jantar est marcado para segunda-feira  noite. No se esquea, viu? Ah, lembrei-me de outra coisa. Certo dia eu estava limpando um velho ba e encontrei uma pasta que pertencia a seu pai. Gostaria de conversar com voc sobre isso.
 Claro, mas...
 H muitos papis interessantes naquela pasta. Preciso consultar um advogado antes, mas acho que vou ter boas notcias.
 Pare de ser to misteriosa! O que ?
 Acho melhor no dizer nada agora. Vejo-a na segunda-feira  noite.
 Tudo bem, ento.
 At l. Um beijo, querida.
Tiffany desligou e olhou para o telefone. O que sua me estava escondendo?
Lilly bateu  porta naquele instante, retirando-a dos devaneios.
 Seu paciente das nove e meia j est aqui  ela anunciou, desaparecendo em seguida.
A manh passou depressa porque havia muitas consultas marcadas. A maior parte dos casos era de crianas com alergias respiratrias por causa da poluio. Nos ltimos anos, aquilo se transformava numa verdadeira epidemia nas grandes cidades.
Os esforos de Clay em relao ao meio ambiente voltaram  sua mente. Sem dvida, todos precisavam fazer alguma coisa a respeito, ou a situao pioraria ainda mais.
 Voc tem visita  Lilly avisou pelo interfone.
O corao dela disparou. Clay dissera, pela manh, que passaria com Molly para que os trs almoassem juntos.
Tiffany caminhou apressadamente at o aparelho e apertou o boto de resposta.
 Mande-o entrar  orientou, abrindo a gaveta da escrivaninha para apanhar a bolsa.
Tambm pegou uma escova para ajeitar os cabelos, e era exatamente aquilo que fazia quando a porta se abriu.
 No precisa se arrumar. Voc j  naturalmente linda.
 Edward?  Ela empalideceu.  O que est fazendo aqui?
O mdico entrou na sala com um enorme buqu de rosas amarelas nas mos. Como sempre, vestia-se impecavelmente.
 Vim tentar faz-la mudar de idia  anunciou, cruzando lentamente o espao que os separava.
Tiffany permaneceu atrs da mesa, perplexa. Edward colocou as flores sobre a escrivaninha e segurou-a levemente nos ombros.
 Eu devia estar louco por t-la deixado ir embora daquele jeito.
 Acho que essa no  a hora nem o lugar para discutir sobre nosso noivado.
 Por favor, querida, sei que andei negligenciando nossa relao. Sinto muito por isso. Deixe-me explicar meu comportamento. Por favor, sente-se.
Ele puxou uma cadeira e fez com que Tiffany acomodasse.
 Isso no vai funcionar...
 Apenas me escute.
Um suspiro escapou dos lbios dela.
 Tudo bem.
 Depois que voc partiu, comecei a pensar seriamente na natureza de nosso relacionamento.
  mesmo?
 Sim. Principalmente depois que meus convidados chegaram e sentiram falta de sua adorvel presena.
Ah, agora tudo estava explicado! Edward sentira falta dela somente porque sua ausncia no passara despercebida aos amigos... Ele detestava qualquer tipo de embarao, e receber convidados para um jantar sem uma acompanhante era uma das situaes que no gostava de enfrentar.
 Escute, Edward, eu gostaria...
 No, no  ele interrompeu-a pela segunda vez, erguendo a mo suave, que contrastava muito com a pele rude e spera de Clay. Tiffany sentiu-se chocada por ter chegado a pensar em dividir sua vida com aquele homem.  Deixe-me continuar.
Ela pensou em esboar um protesto, mas depois concluiu que seria melhor se o deixasse dizer tudo de uma vez.
 Voc  uma jia preciosa, e quero despos-la a qualquer preo. Se isso significa que terei que constituir uma nova famlia, tudo bem.
 Voc est dizendo que quer ter filhos comigo?
 Isso mesmo.  Ele esfregou as mos, encarando-a ansiosamente.
 Sinto muito, mas no.
A expresso dele era de estupor, como se nunca tivesse considerado a hiptese de uma recusa.
 O qu?
 Eu disse no.
Pela primeira vez o sofisticado cirurgio ficou sem palavras.
 Talvez voc possa reconsiderar.
 Eu no o amo. Pensava que sim, mas agora sei que estava enganada. Amor e estabilidade no so exatamente a mesma coisa.
Edward continuava perplexo, como se tivesse sido atingido por um mssil.
 Ento meu palpite inicial deve estar certo...
 O qu?
 Voc conheceu outro homem.
 Pode apostar que sim, amigo.
Tiffany e Edward viraram as cabeas e viram Clay Barton parado na soleira da porta. Molly estava no colo dele, com o polegar na boca. Ao ver os dois, o corao da mdica experimentou uma estranha sensao de alvio.
Os olhos de Edward examinaram Clay de alto a baixo. Os dois se encaravam como boxeadores num ringue.
As diferenas eram visveis. Enquanto Edward parecia um lorde ingls no seu terno de mil dlares, Clay vestia jeans surrado e camiseta.
 Tiffany conheceu a mim  ele anunciou, orgulhoso.
 Eu conheo voc?  Edward perguntou, erguendo o indicador.
 Acho que no.
O mdico meneou a cabea, pensativo.
 Tenho certeza de que j o vi em algum lugar.
 Deve estar enganado  Clay replicou com firmeza. 
Desviando a cabea, Edward olhou diretamente nos olhos de Tiffany.
 Isso  verdade? Voc est com ele?
 Sim  ela confirmou, chocando-se com a prpria resposta.  Est tudo acabado entre ns, Edward. Sinto muito se magoei voc.
 Tem certeza?
 Voc ouviu a doutora  Clay murmurou num tom gutural.
De acordo com sua natureza, Edward negou-se a lutar. Simplesmente ergueu seu nariz aristocrtico e apanhou o buqu de rosas, saindo com a cabea erguida.
 Ento esse  o famoso dr. Edward Bennet!
 Sim, mas eu preferia ter cuidado de tudo  minha maneira.
 Certo. Mas que diabos voc viu num tipo como esse?
Apesar de manter a expresso fria, ela constatou, entusiasmada, que aquele era um sinal inequvoco. Clay estava com cime!
 Edward  um homem muito responsvel e seguro, ao contrrio de certas pessoas que conheo...
 Isso foi um direto no meu queixo, sabia?
 Voc pediu.
 Encare os fatos. Voc foi atrada pelo dinheiro do dr. Bennet, pura e simplesmente.
 Isso no  verdade.
 Tudo bem. De qualquer forma,  histria antiga. Vamos almoar de uma vez  ele decidiu, estendendo a mo.
Tiffany hesitou.
 No sei se quero sair com voc.
Depois de colocar Molly no cho atapetado, Clay deu dois passos e segurou-a com firmeza pelos ombros, forando-a a encar-lo.
 Eu podia beij-la agora mesmo, sabe?
Uma parte dela queria sucumbir quela ameaa deliciosa, mas a outra, mais prudente, recomendava cautela. Ainda precisava pensar em tudo o que fora dito nos ltimos minutos.
Inclinando-se, apanhou Molly no tapete e, surpreendendo-o, caminhou na direo da porta sem dizer mais nenhuma palavra.
 Vejo voc depois do almoo  disse a Lilly ao passar pela recepo.
A garota ergueu a cabea mas nem viu a chefe, encarando Clay com uma expresso surpresa. Ele cumprimentou a recepcionista de forma desajeitada e disparou pelo corredor.
 Ei, voc me deixou falando sozinho!  reclamou ao alcan-la, j no hall dos elevadores.
 Faz um alto conceito de si mesmo, no ?
 Bem...  Ele sorriu e encolheu os ombros.  Se eu no fizer isso, quem far?
 Est se metendo demais em minha vida, Clay Barton, e no gosto disso.
 Pensei que tnhamos comeado a nos entender...
 De onde voc tirou essa idia? S porque uma moa beija um homem, no significa que ele passe a ser dono dela.
 O que aconteceu entre ns foi muito mais do que um beijo, e voc sabe disso. Por isso fugiu desesperada?
Os olhos dos dois se encontraram, e Clay inclinou a cabea. Ela teve que suprimir um suspiro. Ser que ia ser beijada outra vez?
 Voc no  meu dono  avisou, erguendo o queixo.
 Sinto-me to possessivo quanto a voc quanto me sinto por Molly. s vezes chego a pensar que a conheci por toda a minha vida.
 Mas isso no  verdade. Voc faz questo de esconder seu passado, e sabe disso. Contei tudo sobre minha infncia, meus sonhos, meus enganos... mas voc no fez a mesma coisa. Quer que eu me apaixone, mas no  capaz de se abrir comigo. Um relacionamento no funciona desse jeito.
 No estou escondendo nada.  Ele tentou rir, mas no foi muito convincente. Sua atitude suspeita confirmou a impresso que Tiffany tivera.  Vamos l... no seja tola.
 Ento me conte a verdade.
 Farei isso.
Naquele momento, o elevador chegou, e os dois entraram silenciosamente. Havia muita gente descendo para o almoo. Por isso, a conversa s foi reiniciada quando alcanaram o carro, estacionado diante do prdio.
Foi Tiffany quem quebrou o silncio:
 O que  isso?  perguntou, apontando para uma cesta no banco traseiro.
  um belo dia de primavera... pensei que voc gostaria de fazer um piquenique no parque. O que acha?
Ele sorriu de forma encantadora. Quando agia assim, Tiffany era capaz de perdoar-lhe qualquer coisa.
 Vamos fazer nossa prpria festa da primavera.
O percurso at o parque foi realizado em silncio. Os dois pareciam completamente perdidos em seus prprios devaneios. Mesmo assim, Tiffany arriscava um olhar de relance de vez em quando. O perfil msculo de Clay no parava de surpreend-la. Como um homem podia ser to forte e viril num instante e to gentil e carinhoso em seguida?
 Chegamos  ele finalmente anunciou, parando o carro diante do parque Winston.
Desceram e descarregaram rapidamente o cesto de piquenique, bem como a sacola de Molly. O cu era de um azul inacreditvel, as borboletas voavam por toda parte e a paisagem verdejante era um colrio para os olhos.
Enquanto Tiffany segurava a garotinha, Clay estendeu a toalha sobre a grama. Quando terminou, os dois se sentaram sobre os joelhos, e ela colocou a menina no carrinho.
Clay ergueu a tampa da cesta de piquenique e retirou de l alguns sanduches embrulhados em papel-alumnio.
 Presunto e queijo ou salada de frango?  perguntou.
 Frango. Foi voc mesmo que fez esses sanduches?
 Sim.
 Oh...
Claro que sim, ela pensou. Com o oramento limitado com o qual vivia, Clay provavelmente no seria capaz de pagar um almoo num restaurante sofisticado.
 Champanhe?  ele perguntou a seguir, surpreendendo-a. Aquele tipo de bebida no se encaixava na imagem que fazia dele.
 S um pouquinho. Vou ter que trabalhar muito hoje  tarde.
Ele abriu a garrafa sem dificuldade, como se fizesse aquilo todos os dias. Engraado... Tiffany sempre sonhara, na juventude, com viagens maravilhosas, nas quais tomaria champanhe na Riviera Francesa, e sorriu ao lembrar-se disso. Mas em seguida seus pensamentos voltaram  realidade. Olhou de relance para o rtulo da bebida. Era um champanhe bem caro. Como ele pudera gastar tanto dinheiro num simples almoo?
 Estava guardando esta garrafa na geladeira h anos  Clay murmurou, como se estivesse lendo os pensamentos dela.  Para uma ocasio como esta. Quero celebrar o sucesso de minha inveno, a agradvel estadia de Molly em minha casa... e a sorte que tive ao conhecer voc.
 Obrigada.
Tiffany corou ao ouvir as palavras gentis.
 Um brinde?
Depois de se aproximar um pouco, ela brindou e sorveu um gole da bebida deliciosa.
 A Tiffany Avery! A mulher que me ajudou quando eu mais precisava!
Por pouco ela no comeou a chorar. Foi necessrio um grande esforo para que mantivesse o controle.
 Eu no fiz nada demais  protestou.
 Voc foi um anjo com a pequena Molly  Clay elogiou.  E agora outro brinde, para que todos os nossos sonhos se tornem reais.  Tocou levemente seu copo no de Tiffany e sorveu um gole.  Esperamos que a dra. Tiffany fique bastante tempo conosco, no , Molly Johnson?
Seguiu-se um momento de silncio, mais uma vez quebrado por ela.
 Voc sabe mesmo celebrar, no ?
 Sim  ele assentiu com um sorriso.  Voc precisava ver a festa que meus pais deram quando eu patenteei minha torneira automtica. Convidaram at...  A voz de Clay morreu subitamente.
 Quem?  ela apressou-se em perguntar.  Quero ouvir a histria. No seja chato.
 Bem... eles convidaram todos os vizinhos e fizeram um grande churrasco nos fundos de nossa casa. Foi genial!  ele emendou, contendo um suspiro ansioso.
O que Tiffany pensaria se dissesse a verdade? Como ela reagiria se soubesse que naquela festa havia um senador e at mesmo um famoso astro do cinema?
Droga! Devia haver um jeito mais fcil de dizer a verdade. S no tinha descoberto qual.
Ao terminar de comer, deitou-se na grama, apoiado sobre os cotovelos, e olhou-a de relance.
 Veja s as nuvens  murmurou, apontando o cu.  Posso ver um caubi montando seu cavalo naquela ali.
 Essa  uma brincadeira de pessoas sonhadoras  Tiffany observou.
 O que quer dizer?
 Meu pai costumava brincar assim comigo. Ele via lees, castelos e drages. Eu via apenas nuvens.
 Ora, pare com isso. Voc consegue, se tentar de verdade.  Ele apontou para o cu outra vez.  Aquilo no lhe parece um cavalo? Veja s as patas...
 Sinto muito, Clay. No sou do tipo sonhador.
 Tudo bem  ele disse sorrindo.  Algum precisa mesmo manter os ps no cho.
Algum tempo depois, ela se levantou, encarando-o com simpatia.
 Foi realmente um piquenique delicioso, mas preciso voltar para o trabalho.
 Voc vai passar a noite no apartamento outra vez, no vai?  Clay indagou, recolhendo a toalha e colocando o lixo dentro de um saco plstico.
Tiffany hesitou por um instante. Seu corao batia mais forte.
 Acho que no  uma boa idia...
 Por que no?
 Tenho medo de que faamos algo de que possamos nos arrepender depois.
 Por favor. Preciso de voc. A pequena Molly tambm.
 No  verdade. Voc tem cuidado muito bem dela sozinho.
Como se acompanhasse o dilogo, Molly gritou e ergueu os bracinhos. Parecia protestar.
 Est vendo?  Clay aproveitou a chance.  Molly s tem nove meses e j sabe que estamos falando sobre ela. Por favor, fique.  Notou a hesitao nos traos de Tiffany.  Lembre-se, vou lev-la para comprar seu carro novo amanh. Quer que eu faa a viagem at Candleridge apenas para apanh-la?
 Acho que no.  Tiffany no pde conter um sorriso.
 Serei um perfeito cavalheiro  ele garantiu, erguendo dois dedos  testa.  Palavra de escoteiro.
 Voc foi mesmo escoteiro?
 Claro que no.
 Vou lhe dizer uma coisa, Clay: aceito passar a noite em sua casa... mas sob uma condio.
Ele vencera! Tiffany iria dormir mais uma noite em seu apartamento.
 E qual  a condio?
 Voc vai ter que me dizer exatamente quais so os segredos que anda escondendo.



CAPTULO VIII
Clay prometera contar tudo a Tiffany. De volta ao apartamento, trocou a fralda de Molly e ponderou sobre seu dilema. Se contasse a verdade, ela ficaria louca de raiva e iria embora. Se no contasse, tambm no ficaria.
Outro pensamento lhe ocorreu. E se ela no ficasse to decepcionada assim? Se ficasse atrada por seu dinheiro? Considerando a histria de Tiffany, e o fato de ela ter se ligado a Edward basicamente por interesse, podia comear a achar que a fortuna de Clay era mais atraente do que seu amor. E mais uma vez ele seria vtima de uma mulher que se aproximava apenas por causa da riqueza da famlia.
No tinha escapatria. Sabia que teria de dizer toda a verdade. Era apenas uma questo de tempo. Se pudesse esperar at patentear o reciclador, a situao seria ideal. Daquela forma, provaria a Tiffany que podia sustent-la sem depender do dinheiro dos pais. Que seus sonhos loucos no eram to loucos assim. Mas como evitar a promessa feita no parque?
 Estou mesmo numa enrascada, no , srta. Molly Johnson?
Ergueu a menina. Dos lbios dela escapou um riso agudo e penetrante. Estendendo o brao, tocou-o no nariz. Ele ento imaginou como seria maravilhoso ter seu prprio filho. Com Tiffany.
 Est colocando a carroa na frente dos bois outra vez nao  Barton?  perguntou-se em voz alta
Depois de colocar a sobrinha no bero, ocupou-se de tarefas domsticas. Lavou pratos, passou o aspirador na casa arrumou a cama... E durante todo o temposua mente trabalhava como um relmpago. Se conseguisse manter Tiffany ocupada, poderia guardar seu segredo por mais algum tempo. Sabia que era apenas um forma de protelar o problema, e que as coisas ficariam mais difceis depois que Molly fosse para a cama. Provelmente seria naquele momento que Tiffany o interrogaria sobre o passado.
 Diabos ---resmungou. --- Como fui me meter nessa encrenca?
 No queria decepcionar a mdica. Por nada no mundo. Levava uma vida modesta por opo, e no como parte de um sofisticado plano de seduo. Mas continuava temendo a reao dela.
Por que as coisas precisavam ser to complicadas? Clay no entanto tinha que admitir que estava enfeitiado por Tiffany. Gostava dela, e a recproca parecia verdadeira
As coisas deviam ser mais simples. Mas no eram. As emoes humanas recusam-se a trabalhar de forma lgica... Exatamente o oposto dos artefatos mecnicos com os quais ele estava acostumado a lidar.
Os minutos arrastaram-se vagarosamente at as cinco da tarde. A ansiedade misturava-se a uma estranha excitao.
Quando Tiffany tocou a campainha, Clay j estava preparando o molho para o jantar. Planejara cortej-la o tempo todo, esperando que aquilo lhe facilitasse as coisas.
Abriu a porta com um sorriso nos lbios.
 Bem-vinda, doutora.
Ela parecia surpresa e cansada. Seus cabelos normalmente impecveis, estavam levemente desalinhados. Os olhos denunciavam a exausto. Logo depois de passar pela porta, livrou-se dos sapatos de salto alto!
Essa atitude que agradou muito a Clay. Era sinal de que j se sentia em casa.
 Para voc.  Ele estendeu um copo de ch gelado.
 Oh, obrigada.  Tiffany o recompensou com um sorriso, colocando no cho a maleta que carregava.
 Deixei a gua da banheira morna e agradvel para que tome um banho. Enquanto isso vou terminar o jantar.
Era apenas a imaginao de Clay ou os olhos dela brilhavam como se estivessem contendo lgrimas? Tiffany piscou e engoliu em seco. Ser que ele tinha feito alguma coisa errada?
 Onde est Molly?  ela perguntou. Clay examinou rapidamente a sala de estar.
 Estava aqui h um minuto...
Em resposta, a menina gritou. Depois de se encararem em pnico por um instante, os dois correram para a cozinha.
 Molly!  Clay gritou, abaixando-se para olhar em baixo da mesa.
A menina gritou outra vez.
Tiffany abriu a porta do armrio e encontrou Molly sentada entre os sacos de cereais. A garota encarou-os com espanto e estendeu os braos pequeninos.
 Mocinha, voc me fez envelhecer dez anos nesses ltimos quatro dias. No sei mais o que fazer. Vou colocar trancas nesse armrio amanh mesmo!  Clay declarou, assustado.
 Mas ela vai partir em poucos dias. Por que se preocupar com esse detalhe agora?  Tiffany perguntou, embalando a menina nos braos. As duas se entendiam perfeitamente.
 Porque no quero correr nenhum risco com minha sobrinha. Alm disso, provavelmente vou me transformar numa bab no futuro  ele explicou, bem-humorado.  Deixe-me ficar com Molly. V logo tomar seu banho, para relaxar.
 Foi muito gentil de sua parte preparar a banheira  Tiffany murmurou envergonhada, abaixando a cabea levemente.
 Foi um prazer. Agora, se apresse.  Ele segurou-a pelo brao, conduzindo-a at o banheiro.
O aroma delicioso do molho de alho espalhava-se pela casa, vindo da cozinha. Tiffany ainda podia sentir o gosto do ch com limo que acabara de beber. Casar-se com Clay seria assim? Um jantar delicioso na mesa, uma casa limpa e confortvel, uma criana feliz... e um homem sexy, carinhoso?
Se ele ao menos pudesse lhe contar todos os seus segredos... Tiffany sabia que o assunto o incomodava. Por isso, talvez fosse melhor esperar at que o prprio Clay resolvesse tocar naquilo. Talvez temesse choc-la.
Sim, esperar era provavelmente a deciso mais sbia.
O final de semana foi movimentado. No sbado pela manh, bem cedo, os trs tomaram caf. Ento Clay foi at o armazm fazer compras. Passou cerca de uma hora colocando trancas nos armrios enquanto Molly e Tiffany brincavam na sala de estar.
Depois de terminar o trabalho, preparou espaguete para o almoo e levou-a a procurar um carro. A loja que visitaram tinha um showroom espetacular, com palhaos e bales para crianas. Andaram bastante por l, e durante a visita Molly no largou seu balo de gs nem por um segundo.
Tiffany no sabia ao certo que tipo de veculo queria. Gostava de dirigir o carro esporte de Edward, mas no era exatamente o que desejava. Na verdade, foi uma picape minivan que atraiu sua ateno.
 Por que escolheu esse?  Clay perguntou.   grande demais para uma pessoa s.
 Estou pensando no futuro. Afinal de contas, no pretendo ficar sozinha o resto da vida.
 Est imaginando algum em especial?
 Como?
A pergunta a fez parar e encarar o olhar vido. O que Clay estava querendo dizer?
 Quero dizer... Voc no pensa em reconsiderar a proposta de Edward, no ?
 No  ela respondeu, desviando a cabea.  Mas quero me casar e ter filhos, e num futuro no muito distante.
 Ol, pessoal!  Um vendedor entusiasmado os saudou naquele momento.  Esto interessados na minivan?
Os dois passearam por todo o ptio, sempre com o vendedor ao lado.
 Deixem-me adivinhar...  o homem arriscou, esfregando as mos.  Precisam de mais espao porque esto pensando em providenciar um irmo para essa garotinha linda, no ?
Tiffany fez meno de protestar, mas Clay interrompeu-a gentilmente e assentiu com um gesto de cabea.
 Sim  mentiu.  Como descobriu?
 A maneira como vocs dois se olhavam.  O vendedor piscou maliciosamente.  Qualquer um pode ver que so loucos um pelo outro.
Tiffany corou. Ser que aquilo era to aparente?
 Desculpe-me, querido.  Colocou nfase na ltima palavra.  Posso falar com voc a ss por um instante?
 Espere um pouco, por favor  Clay pediu para o vendedor antes de pegar o brao de Tiffany e afastar-se at a parte traseira da minivan preta.
 Que idia foi essa?  ela perguntou, estreitando o olhar.  Por que disse que somos casados?
 Talvez ele nos oferea um negcio melhor se pensar que somos um jovem casal com uma filha pequena...
 Escute, sou perfeitamente capaz de negociar sozinha e no tenho que mentir para fazer isso.
 Senhor?  O vendedor chamou.
 Sim?  Clay respondeu, dando dois passos para trs a fim de encarar o homem.
 Posso vender essa beleza para o senhor com um desconto de mil dlares.  Deu um tapinha na lataria do veculo.  Acredite... sei como  o comeo da vida de uma famlia. Eu mesmo tenho trs filhos.
Clay olhou de relance para Tiffany, como se falasse eu no disse?.
 Voc tem uma cor mais clara?  ela perguntou.
 A senhora escolhe. Azul, branco, prata. Sigam-me. O vendedor comeou a caminhar para o interior da loja. Clay e Tiffany o seguiram alguns passos atrs.
A irritao inicial da mdica desapareceu. Afinal de contas, qual seria o problema em fingir que era a sra. Clay Barton por alguns minutos?
 Est pronta para fazer um bom negcio, minha querida esposa?
Esposa. A palavra parecia soar de forma diferente nos lbios de Clay. Tiffany sentiu um arrepio estranho percorrendo sua espinha. Quando saram da loja, uma hora depois, j era a feliz proprietria de uma minivan azul, nova em folha. O vendedor garantiu que o carro seria entregue na segunda-feira, depois que o licenciamento fosse providenciado.
Voltaram para o apartamento por volta das sete horas da noite, aps um passeio num parque de diverses e uma sesso de cinema. Tiffany foi direto para o quarto, trocar a fralda de Molly, enquanto Clay ficou na cozinha, preparando a mamadeira.
A menina terminava de mamar, aninhada confortavelmente nos braos da mdica, quando o telefone tocou. Clay atendeu prontamente e comeou a falar em voz baixa. Naquele momento, a mente de Tiffany perdeu-se em devaneios maravilhosos. No podia esperar pelo dia em que fosse realmente me.
 Era Anne  Clay explicou ao desligar, oferecendo uma lata de refrigerante que trouxera da cozinha. Sentou-se no tapete.  Felizmente o estado da me de Holt  bem melhor. Eles voltaro para casa amanh.
To cedo? O corao de Tiffany apertou-se. Aquilo significava que no haveria mais desculpa alguma para que permanecesse no apartamento de Clay. Precisaria voltar para o lugar solitrio que chamava de casa e, na verdade, no teria mais nenhum motivo para v-lo outra vez.
 Tiffany?
Ela o encarou, lutando consigo mesma para no demonstrar o que sentia. Molly cara no sono, e seu corpo pequenino repousava-lhe pesadamente nos braos.
 Voc est bem?  Num instante, ele estava de joelhos aos ps da mdica. Tomou-a pelas mos.  O que h de errado?
 Nada.  A voz dela soou tensa. Como dizer que estava daquele jeito por causa de Clay?  Fiquei feliz com as boas notcias sobre a sogra de sua irm. Tenho certeza de que Anne e o marido tambm vo ficar muito felizes por ver Molly outra vez.
 Vai sentir falta dela como eu, no vai?
 Sim.  tolice, mas vou...
 No  tolice. Essa garotinha mudou muito minha vida, voc sabe, e sinto-me da mesma forma. Por falar nisso, deixe-me coloc-la no bero.
Tomou Molly nos braos e levou-a para o quarto. Quando voltou, Tiffany recebeu-o com uma pergunta.
 O que pretende fazer com o dinheiro que vai conseguir quando vender sua mquina?
 Oh, eu no sei. Pensei em comprar uma motocicleta e fazer uma viagem pelo pas. No tiro frias h quatro anos, voc sabe.
 O qu?  Ela franziu as sobrancelhas.
 Acho que voc no aprova a idia.
 No sou eu quem deve lhe dizer o que fazer com seu dinheiro...
 E o que voc faria se estivesse no meu lugar?
 Bem, certamente algo menos frvolo.  Tiffany ergueu o queixo com imponncia.
 Ah, ?
Diabos, quem ela pensava que era? Algum gnio das finanas?
 Voc devia pensar em investimentos de longo prazo  ela continuou.  Algo mais rentvel.
 E chato.
 No  nada chato ganhar dinheiro.
 Para voc, provavelmente no...
 O que est querendo dizer?  As feies dela tornaram-se mais duras.
 Quis dizer que sua constante preocupao com assuntos materiais estraga sua criatividade. E em busca de idias novas que pretendo viajar pelo pas.
 Acho uma atitude irresponsvel.
Clay arqueou as sobrancelhas.
 Por que no fala claramente? Por que no diz que me considera um irresponsvel? Admita.
 Se a carapua lhe serviu...  Ela desviou a cabea.
 Ah! Eu sabia! Voc tentou fingir que no se importava com minha falta de dinheiro, mas no conseguiu, no ?
 Eu nunca disse isso.
 Mas pensou.
 Apenas comentei que achava irresponsvel voc gastar cada centavo fingindo ser James Dean. Devia pensar um pouco no futuro.
 Por qu? Eu no tenho nenhuma famlia para sustentar.
 Pode vir a ter.
 Escute, no sou como seu pai, certo?  ele explodiu.
 Nunca negligenciaria minhas obrigaes familiares, se as tivesse. Se e quando eu tiver filhos, pode ter certeza de que sero bem-tratados. Nenhum ser forado a dormir em tendas... Diabos! Eu no queria dizer isso.
Era tarde demais para se desculpar, pois as lgrimas j corriam pelo rosto de Tiffany. Ela recostou-se lentamente no sof e comeou a soluar baixinho.
 Ah, sinto muito!  Clay inclinou-se na direo dela, mas foi repelido.
 Abri meu corao, contei tudo sobre minha infncia e agora voc usa isso para me atingir. Eu devia saber desde o comeo que no podia revelar nada. Fui uma tola quando pensei que esse relacionamento poderia ter algum futuro.
A expresso de Clay era apavorada. Ser que tinha arruinado tudo?
Tiffany levantou-se e comeou a juntar suas coisas.
 Por favor  ele murmurou  voc no precisa ir embora hoje.
 Acho que  melhor. 
  tarde. Voc est cansada...  Ela ficou parada, a bolsa na mo, tremendo de raiva.  Sinto muito. De verdade. No vamos deixar nosso final de semana terminar assim.
  melhor eu ir agora, antes que as coisas piorem.
Clay a encarava, inconsolvel como um menino que tivesse perdido seu melhor amigo. Subitamente, Tiffany sentiu-se envergonhada. Aquele homem realmente parecia ter o poder de penetrar na barreira emocional que ela construra cuidadosamente ao longo dos anos. Era como se fosse feita de vidro, e Clay pudesse ler todos os seus pensamentos.
 Por favor, fique. Vai ser sua ltima chance de ver Molly.
Com um suspiro, Tiffany recolocou a bolsa na cadeira e a mochila de roupas no cho.
 Voc venceu  rendeu-se, desanimada.
Ela acordou no domingo com cheiro de caf e bacon. Rolando na cama, sorriu. Era timo estar cercada pelas atenes de Clay. Nunca experimentara aquilo. Com Edward, era sempre a responsvel por todos os arranjos.
Molly balbuciou algo. Quando Tiffany se aproximou, a menina sorriu, demonstrando extrema felicidade.
 Bom dia, anjinho.  Ela ergueu a garotinha nos braos.  Acho que algum precisa de uma fralda seca...
Depois de trocar a menina, Tiffany voltou a coloc-la no bero e caminhou lentamente at a cozinha.
 Bom dia  Clay cumprimentou, usando uma voz rouca e sexy. Seus cabelos estavam despenteados, como sempre, e o sorriso era encantador.  Dormiu bem?
Tiffany retribuiu o sorriso.
 Como um beb.
 Espero que no tenha molhado as fraldas...
Os dois riram. Estavam muito prximos. O pulso dela acelerou-se de forma incontrolvel. Podia sentir a respirao quente de Clay a poucos milmetros do prprio rosto.
 O que voc faz comigo  um verdadeiro crime  ele sussurrou roucamente, envolvendo-a num abrao apertado.
 Oh,  mesmo?  Tiffany ergueu o queixo, literalmente pedindo para ser beijada.
 Sim.  Os lbios de Clay cobriram os dela, possessivos, vidos, sedentos.
Com a mo livre, ela acariciou-o no rosto e nos cabelos, ao mesmo tempo em que retribua o beijo passionalmente.
 Eu sabia  ele murmurou ao se afastar.
 O qu?  ela perguntou, erguendo o rosto e mordiscando o lbio inferior.
 Que por trs daquela aparncia fria e profissional se escondia uma gata selvagem.
Segundos depois, voltou a beij-la com o mesmo mpeto.
 Hum...  foi o nico comentrio dela.
 Ainda bem que no me beijou desse jeito ontem  noite...  Ele encostou o rosto no ombro de Tiffany.  Seno, eu no me responsabilizaria por meus atos.
 Est querendo dizer que tambm  um gato selvagem?  ela murmurou num fio de voz.
 Ah, voc  sexy demais!
Clay segurou-lhe o rosto com as duas mos e em seguida a beijou pela terceira vez.
Tiffany sentiu uma corrente eltrica percorrer seu corpo. Todos os seus nervos vibravam com uma urgncia febril. Queria fazer amor com aquele homem!
Mais uma vez foram interrompidos por um grito agudo de Molly.
 O que foi isso? Onde ela est?  Clay perguntou, preocupado.
Depois de fazer um gesto para acalm-lo, Tiffany foi at o quarto e voltou com a menina no colo.
 Molly prendeu o dedo no suporte do bero  informou, beijando o dedo minsculo.
 Ser que nunca vamos ter um minuto de sossego?
 Crianas so assim mesmo...
 Preciso inventar um bero  prova de acidentes  Clay murmurou.  Pobre Molly!
 Ela vai ficar bem  Tiffany tranqilizou-o, passando os dedos delicadamente pelos cabelos da menina.  Foi apenas mais uma das lies que a vida vai lhe ensinar.
 Ora, dra. Avery, eu no sabia que era filsofa!  ele brincou. Naquele instante, porm, seus olhos se desviaram para o fogo.  O bacon est pegando fogo!
A fumaa j tomava conta do ambiente. Movendo-se como um relmpago, Clay apanhou um pano e retirou a frigideira incandescente do fogo, colocando-a sob a torneira. Em poucos segundos, tudo voltou ao normal. Ou quase.
 Voc est bem?  Tiffany perguntou, preocupada.  Queimou a mo?
 S um pouco. Foi s um susto. Eu e minha mania... 
A campainha tocou, interrompendo-o. Clay abanou o ar com o pano de maneira febril, pois a fumaa ainda no se dissipara por completo. Em seguida foi at a porta da frente, voltando instantes depois, acompanhado de uma mulher alta e linda. Sem dvida era Anne, a me da pequena Molly.
 Oh, minha querida!  ela exclamou, pegando a menina dos braos de Tiffany.  Eu no agentava mais de tanta saudade...  Depois de dizer aquilo, cobriu a filha de beijos.
Um homem alto entrou na cozinha, logo atrs de Anne. Sorriu para Tiffany e estendeu a mo.
 Ol. Sou Holt Johnson e essa  minha mulher, Anne.
Fiquei sabendo que voc ajudou Clay a cuidar de nossa pequena Molly.
 Sim...  ela respondeu, sem saber o que dizer. 
Estava surpresa com a aparncia do casal. A julgar pelas roupas caras e pelos modos de ambos, podia jurar que possuam muito dinheiro. As velhas camisetas de Clay e seus jeans surrados sem dvida contrastavam muito com aquilo.
Ser que a irm nunca se preocupou em ajudar o irmo a melhorar de vida?, Tiffany perguntou-se, curiosa.
 Essa  a dra. Tiffany Avery  Clay apresentou formalmente.
 Muito obrigada, doutora, por ter sido to gentil e ajudar o maluco do Clay.  Anne sorriu e tocou de leve nos ombros de Tiffany.  Ele devia ter contratado uma...
 Acha que essa queimadura pode infeccionar?  Clay interrompeu, praticamente se interpondo entre as duas.
Tiffany lanou-lhe um olhar suspeito. Alguma coisa no estava certa. Estudou-lhe a palma da mo, examinando a queimadura. Nada srio, como o prprio Clay dissera antes que a campainha tocasse.
 Voc vai sobreviver  sentenciou.
 Ns realmente apreciamos muito o cuidado que teve com Molly  Holt interveio, apanhando a filha no colo.  Foi um grande alvio saber que ela estava em boas mos enquanto passvamos por aquela espera torturante no hospital.
 Sim  Anne concordou.  Sinto muito por ter lhe dado tanto trabalho, Clay. Se papai e mame no estivessem...
 Fora da cidade  ele terminou pela irm.  Ei, vocs, querem dar uma olhadela no meu novo prottipo? Vou cham-lo de reciclador Barton...
Enquanto Clay falava sem parar, Tiffany o estudava. Realmente, havia algo muito estranho em seu comportamento. Por vrias vezes, ela notara estranhas trocas de olhares entre os irmos, como se os dois estivessem se comunicando em uma espcie de cdigo.
Mesmo assim, achou melhor no tocar no assunto naquele momento, limitando-se a conversar casualmente e ajudando a apanhar as coisas de Molly, espalhadas pela casa.
S quando o casal finalmente partiu, levando a linda garotinha, Tiffany decidiu voltar  ofensiva. Clay estava na janela, dando adeus para o carro que se afastava.
Batendo-lhe levemente nos ombros, ela foi direto ao ponto:
 Muito bem, Clay Barton, comece a falar. Quero saber exatamente o que est querendo esconder de mim. E quero saber agora!



CAPTULO IX
 Acho melhor no lhe contar agora  Clay considerou.  Quero esperar a hora certa.
Tiffany nada disse, limitando-se a encar-lo.
 Q-quero dizer...  balbuciou , ainda no estou preparado para discutir esse assunto.
Colocando as mos na cintura, Tiffany arqueou as sobrancelhas. At quando ia ficar calada?
 Prometo lhe contar tudo depois que visitar o advogado que vai registrar minha patente.
 Veja bem  ela finalmente disse , se voc est querendo se livrar de mim, pode dizer. Saberei suportar isso.  Passou por ele, dirigindo-se ao corredor que levava ao quarto.  Apenas preciso pegar minhas coisas. Desculpe por ter sido um incmodo.
 Ei, espere um minuto! Aonde voc est indo?  Clay teve de correr para alcan-la.
 Para casa.  Tiffany parou a um passo dele, abaixando a cabea.
 Por favor, tenha pacincia!
 Ter pacincia? O que quer dizer com isso? Passei a semana inteira ajudando-o a cuidar de sua sobrinha, e voc nem mesmo conversou comigo!  Ela ergueu o queixo com imponncia.  Pior do que isso, no confia em mim!
 Querida...
 No ouse me chamar assim! No nos conhecemos bem o bastante para isso.
 S porque voc no sabe tudo sobre meu passado no significa que no nos conheamos bem.
 Nosso relacionamento no pode continuar enquanto voc insistir em esconder coisas de mim.
 No estou escondendo nada  ele mentiu.
Sabia, porm, que precisaria dizer a verdade logo. Talvez naquele momento. Faria qualquer coisa para impedi-la de ir embora. Mas ao mesmo tempo tinha medo de perd-la...
Tudo o que queria era obter respeito por seu prprio talento, e no por causa do dinheiro dos pais.
 Achei que estivesse acontecendo alguma coisa importante entre ns  Tiffany murmurou.  Mas agora vejo que me enganei.
 S peo quarenta e oito horas.
Tiffany ficou batendo no cho com o salto do sapato.
 Tudo bem. Quarenta e oito horas. Mas, se na tera-feira  noite voc no tiver uma boa explicao, tudo estar acabado entre ns. Certo?
Uma trgua! Ela concordara em esperar. Agora tudo o que Clay precisava fazer era patentear sua inveno.
 Voc acabou de fazer um acordo, dra. Avery.
Na manh de segunda-feira, ele dirigiu at Dallas. Durante todo o trajeto no conseguiu parar de pensar em Tiffany.
Mulheres! Nunca era possvel entend-las...
Passar os ltimos dias com ela e Molly provocara-lhe uma mudana interna, o que criara um instinto paternal adormecido at ento. Juntos, os dois formariam um casal realmente incrvel.
Clay mal podia esperar para resolver o problema da patente do reciclador. Logo que aquilo acontecesse, pretendia pedir a bela dra. Avery em casamento.

Tiffany no conseguia se concentrar. Estivera distrada durante todo o dia, e at mesmo Lilly percebera. No conseguia parar de pensar em Clay.
Continuava se perguntando por que ele insistia em manter segredo sobre o prprio passado. Estaria escondendo algum segredo terrvel? Uma namorada, por exemplo? Ou ser que o passado era simplesmente um assunto no qual Clay no gostava de falar?
Bem, ao menos tivera o bom senso de no permitir que nada de mais ntimo acontecesse. Mas mesmo isso lhe causava um aperto no peito. De alguma forma, Clay Barton conseguira entrar em sua armadura. Contra todas as expectativas, fora capaz de conquistar seu corao.
Por volta das cinco horas da tarde ela terminou todo o trabalho, e cerca de cinco minutos depois bateram  porta de seu consultrio.
 Pode entrar.
 Oi, querida  Stella Avery cumprimentou-a ao entrar.
 Mame!
Sentindo-se culpada por ter esquecido completamente o encontro marcado, Tiffany cruzou a sala e foi abra-la.
 Oh,  to bom v-la de novo, meu amor! 
Tiffany deu um passo para trs e examinou Stella.
 Nossa, voc est linda!
 Tenho novidades maravilhosas.  Os olhos de Stella brilhavam intensamente.  Vamos logo sair para jantar, e ento lhe contarei tudo com detalhes.
 Claro.
Poucos minutos depois, quando as duas entraram no restaurante italiano localizado em frente ao prdio onde ficava o consultrio, Stella pediu ao maitre uma mesa bem reservada.
 Assim poderemos conversar mais tranqilas  justificou-se um segundo depois, dirigindo-se  filha.
Quando finalmente conseguiram ficar a ss, Tiffany encarou a me com curiosidade.
 Bem, voc est sorrindo desde que chegou. Portanto, as novidades devem ser mesmo muito boas. O que foi?
Stella retirou um envelope da bolsa, abriu-o e apanhou alguns documentos.
 Isto.  Empurrou os papis na direo da filha, por sobre a toalha vermelha da mesa.
Franzindo as sobrancelhas, Tiffany examinou rapidamente os papis.
 Tesouros recuperados no navio Calypso, que afundou numa tormenta nas costas do Brasil em 1778  ela leu em voz alta , um trabalho rduo que levou dezessete anos.
O documento relacionava tudo o que fora descoberto: medalhes de ouro, prataria, diamantes, rubis, safiras e esmeraldas. O valor total da descoberta era estimado em quarenta e seis milhes de dlares.
Tiffany ergueu a cabea e olhou para o rosto animado da me.
 O que isso significa?
 Continue lendo!  Stella aconselhou, mal conseguindo esconder a excitao.
Depois de encolher os ombros, Tiffany continuou a virar as pginas at encontrar uma lista de investidores. Subitamente, um nome chamou-lhe a ateno.
Thomas Delaney Avery. Seu pai!
Engoliu em seco. Suas mos tremiam e a cor desapareceu de seu rosto.
 O que isso significa?
 Lembra-se daquele ano em que seu pai investiu os ltimos dois mil dlares que tinha numa expedio de mergulhadores?
Mais uma vez Tiffany franziu as sobrancelhas.
 Isso foi antes ou depois do fracasso na reserva indgena?
 Depois. Foi antes de nos mudarmos para Chicago.
Tiffany meneou a cabea lentamente.
 Papai tinha tantos projetos malucos que acho impossvel lembrar de todos eles.
 Bem, parece que esse no era to maluco assim.  Stella apontou para o documento.  Mas demorou dezessete anos at Michael Fisher encontrar o tal barco. Agora, minha filha, ns estamos ricas.
Os lbios de Tiffany entreabriram-se de espanto.
 O qu?
 O homem me ligou na semana passada e informou que a parte de seu pai estava  disposio. Claro que consultei um advogado antes, s para me certificar de que no havia nenhum problema...
 E havia?
 No. A parte de seu pai corresponde a dois milhes de dlares. Pode acreditar nisso?
Atnita, Tiffany apoiou-se na mesa com ambas as mos. Todos aqueles anos de sofrimento causados pela conduta fantasiosa do pai finalmente tinham sido recompensados.
 Sempre acreditei nele. Sempre.  Stella levou as mos ao peito e suspirou.  S fico triste por Tom no ter vivido para ver esse dia. Sei que vivenciou muitos fracassos, mas para mim isso nunca importou.  Lgrimas corriam por seu rosto, abundantes.
 Oh, mame...
Tiffany suspirou. Durante todos aqueles anos sempre culpara o pai pela prpria infelicidade. Como as coisas teriam sido diferentes se tivesse acreditado sinceramente nele, como sua me fizera!
As boas notcias lhe causaram, entretanto, uma srie de dvidas. Ser que poderia oferecer a Clay o mesmo tipo de lealdade que sua me tivera em relao ao marido? Mesmo que ele no conseguisse um centavo com suas invenes?
Agora, teria segurana financeira. Clay no precisaria mais esforar-se para sustent-la. Na verdade, ele podia lhe oferecer um tipo diferente de estabilidade, baseada no carinho e numa afeio profunda...
Subitamente, pensou que no agentaria esper-lo por muito tempo. Precisava se desculpar por algumas coisas que dissera, e precisava fazer aquilo logo.
S temia que Clay a rejeitasse. Afinal de contas, fizera um ultimato, e ele podia no ter gostado nada daquilo.
 Querida?  A voz suave de Stella chamou-a de volta  realidade.  Voc est bem? Seu rosto parece uma folha de papel.
 Acho que estou apaixonada. E ele  muito parecido com papai.
Os lbios da me curvaram-se num sorriso brilhante.
 Isso  maravilhoso, querida! Conte-me tudo sobre ele.
 Clay  inventor. Um inventor muito criativo.  Enfatizou a ltima palavra.  Na verdade, foi para Dallas hoje para providenciar a patente de uma mquina que acabou de criar.
 Sim?
 Tenho medo de am-lo demais. Sempre me lembro da vida que tivemos com papai. Os altos e baixos, a falta de estabilidade... No comeo isso me manteve longe de Clay. Mas de alguma forma, apesar de minhas reservas, ele conseguiu conquistar meu corao. No paro mais de pensar naquele homem.
 Voc o ama?  Stella encarou-a fixamente.  Porque isso  tudo o que realmente interessa. Sei que sua infncia no foi fcil, e me lembro de que seu pai sempre se sentiu culpado por no ter conseguido lhe oferecer uma vida melhor. Mas ele era um bom homem, que apenas seguia as prprias intuies com um entusiasmo exagerado. Talvez no devssemos ter pensado em filhos, mas ns a amamos tanto...
 Eu sei  Tiffany sussurrou.  No meu caso, as coisas so um pouco diferentes, porque agora vou poder sustentar uma famlia. Clay poderia ficar em casa com as crianas e cuidar de suas invenes, e eu continuaria trabalhando normalmente em meu consultrio. 
 Basta que nenhum dos dois se incomode com bobagens  Stella ponderou.  Alm disso, voc nunca mais vai ter que se preocupar com dinheiro. Metade dessa fortuna vai ser sua.
Sim, as coisas podiam funcionar direito. Ao lado de Clay, sua ansiedade desaparecia como num passe de mgica.
 Converse com ele  a me aconselhou-a.  Diga como se sente de verdade. Posso lhe afirmar apenas uma coisa com certeza, minha filha: a vida  curta demais para desperdiarmos um minuto de amor.

Relaxe, Tiffany disse a si mesma enquanto terminava de preparar a mesa no apartamento de Clay, no comeo da noite de tera-feira. Fora para l mais cedo, para receb-lo com um jantar especial.
Em vez de cozinhar, entretanto, preferira encomendar a comida num dos melhores restaurantes da cidade. Esperava que aquela fosse uma das noites mais importantes de sua vida, e todos os detalhes precisavam ser perfeitos.
Quando tudo ficou pronto ela sentou-se no sof e esperou pelo que lhe pareceu uma eternidade. Finalmente ouviu a chave girando na fechadura. Desligou a televiso, descruzando as pernas e olhando para a porta com uma expresso ansiosa.
Clay carregava o reciclador num carrinho de mo. Parou ao v-la. Sua expresso era de surpresa. No parecia satisfeito em v-la por l.
 O que est fazendo aqui?
O tom pouco amistoso a fez tremer. Ela levantou-se do sof e caminhou na direo da porta.
 E-eu... planejei um jantar de boas-vindas.
Onde estava o homem jovial ao qual se acostumara nos ltimos dias?
 Por qu?
 Algo aconteceu, e tive bastante tempo para pensar.  Tiffany parou no meio do caminho, encarando-o fixamente.
O olhar masculino, porm, permaneceu impassvel. Clay limitou-se a fechar a porta e caminhar na direo dela com uma expresso irritada.
 Por que no nos poupa sofrimento e vai embora agora?  sugeriu.
 O que houve? Voc nunca falou assim comigo!
 Voc no me conhece direito  ele zombou com desdm. Lgrimas surgiram nos olhos azuis de Tiffany. No era aquilo que planejara.
 Encomendei um jantar delicioso  murmurou, esforando-se para no chorar.
 No estou com fome.
Depois de deixar o carrinho de mo num canto, ele se atirou no sof e ligou a televiso, demonstrando total indiferena.
 O que est errado?  Tiffany sussurrou.  Eu quero ajud-lo.
 Voc no pode fazer nada.
 Diga-me  ela insistiu, com vontade de se aproximar, mas ao mesmo tempo temendo ser rejeitada.
Clay passou os dedos entre os cabelos.
 No quero falar nisso.
 Aconteceu algo com Molly?  Tiffany arriscou, alarmada com a idia de que algo pudesse ter acontecido com a adorvel menina.
 Pelo que sei, ela est muito bem.
Naquele momento, Clay olhou de relance para o reciclador, e ela subitamente entendeu o que acontecera.
 Fale comigo. Pare de tentar conter suas emoes.  Tiffany por fim tomou coragem e aproximou-se do sof, abraando-o por trs.
O olhar de Clay suavizou-se, mas ele no retribuiu ao abrao.
 Quatro anos de minha vida jogados no lixo  murmurou com desnimo.
 O que aconteceu?
Clay soltou uma risada amarga.
 O grande Clay Barton, inventor... o homem que pretendia salvar o mundo com sua mquina maravilhosa!
 Pare de sentir pena de si mesmo!
  muito fcil falar, doutora. Voc tem uma carreira estvel, um papel a cumprir na sociedade. Eu, no. Sou apenas um vagabundo sonhador.
 Isso no  verdade.
 Sou um fracasso.
Tiffany abraou-o com mais fora.
 No , no.
 Sim, eu sou.  Clay abaixou a cabea e deixou escapar um suspiro.  Pode acreditar? Algum patenteou uma mquina semelhante a meu reciclador trs semanas atrs.
 Oh... eu sinto muito!  ela lamentou, emendando com energia um segundo depois:  Mas isso pelo menos prova que voc estava no caminho certo, no ?
 Grande vantagem! O que aconteceria se eu tivesse uma famlia para sustentar? Gastei quatro anos numa inveno que no vai me dar um centavo!
 Foi por isso que vim aqui. Precisava lhe dizer algo. No importa que voc no tenha um emprego estvel. Posso oferecer segurana a ns dois.
Clay meneou a cabea negativamente.
 No. Voc estava certa o tempo todo. Sou como seu pai. Irresponsvel, sonhador e egosta.
 Descobri que estava enganada sobre meu pai  Tiffany murmurou.  S pensei nas coisas que ele no pde nos dar. Acabei me esquecendo do amor que papai sempre dedicou a mame e a mim. Ele era um visionrio. Minha me percebeu isso a tempo, mas eu o enxergava apenas do ponto de vista infantil.
 De que est falando?  Clay virou-se para encar-la.
Tiffany respirou profundamente e ergueu o queixo altivamente.
 Tenho dinheiro agora.
 O qu?
 Um dos investimentos malucos que meu pai fez provou no ser to ruim, afinal. Demorou dezessete anos, mas agora a recompensa chegou. Sou uma mulher rica.
Um sorriso irnico curvou os lbios dele.
 Bem, doutora, voc  mesmo imprevisvel. Primeiro no queria se envolver comigo porque eu no podia lhe oferecer um futuro estvel, e agora est se oferecendo para cuidar de mim. Isso  engraado.
 Aprendi muito enquanto estive aqui com Molly e com voc.
 Mas eu quero seu respeito, no sua piedade. No posso continuar com nosso relacionamento at ser capaz de provar que tenho valor.
 Tolice! Tudo bem, algum foi mais rpido que voc dessa vez, mas, e da? Se no desistir, tenho certeza de que poder inventar outras coisas incrveis.
Ela avanou e enlaou-o num abrao, mas daquela vez suas intenes eram bem diferentes. No comeo, Clay no quis se render, mas Tiffany insistiu e beijou-o demoradamente.
 Quer que eu lhe diga o que penso a seu respeito?
 Pare, Tiffany Avery. No faz nem idia do que est provocando em mim.
 Fao, sim. E sou uma mulher de vinte e nove anos que quer tudo o que a vida pode oferecer.
 De que est falando?
 Vim at aqui para fazer amor com voc  Tiffany murmurou, voltando a beij-lo no rosto e no pescoo.  Quero voc. Agora.
Durante alguns momentos, ele a encarou, estupefato. Logo depois, porm, uma sombra pareceu nublar-lhe os olhos.
 No  disse, afastando-se.
Tiffany ergueu a cabea e encarou-o com mgoa.
 Voc no me quer?
 Claro que quero, mas no desse jeito.
 O que eu fiz de errado?  Ela olhou para o sexy vestido de seda que escolhera. Seus lbios estavam trmulos e seu corao, muito acelerado.  Pensei que homens gostassem de ser seduzidos...
Clay percebeu imediatamente que ela estava insegura quanto  prpria sensualidade. No comeo do relacionamento, os beijos de Tiffany eram tmidos, e haviam mudado gradualmente. Ser que ela era to inexperiente assim? E quanto ao ex-noivo? Ser que os dois nunca haviam tido nenhuma intimidade? Aturdido, ele chegou a uma concluso surpreendente.
 Voc  virgem, no ?  Ao dizer aquelas palavras, Clay sentiu-se honrado pelo presente inestimvel que Tiffany lhe oferecia. Mas era um prmio precioso demais para aceitar.
Ela baixou os olhos.
 Sim.
Estendendo a mo, ele lhe ergueu o queixo.
 No precisa ficar envergonhada.
 No estou envergonhada. Mas estou pronta, pode acreditar.
 No, querida  ele recusou com gentileza.
Aquela oferta tocara-o profundamente. Se no estivesse to apaixonado, provavelmente no pensaria duas vezes. Mas no podia se aproveitar de Tiffany. At que tudo estivesse completamente esclarecido, e ela soubesse toda a verdade sobre seu passado...
 Por favor, no faa isso comigo...  Lgrimas corriam pelo lindo rosto de Tiffany.
 Querida, eu no posso.
 Voc no me acha atraente?
 Ora, claro que acho. Mas tive um dia ruim, e preciso repensar meus planos de vida. No seria justo me aproveitar de voc, usando-a apenas para esquecer meus problemas.  O sofrimento expresso no olhar dela quase o fez mudar de idia. Depois de engolir em seco, porm, Clay disse a nica coisa que jamais imaginara dizer:  Sinto muito. V embora.



CAPTULO X
Tiffany nunca se sentira to envergonhada. Saiu do apartamento caminhou at seu carro. Dirigiu como um rob. Seu corao estava partido. Estilhaado em mil pedaos. A primeira coisa que fez ao chegar em casa foi atirar-se sobre a cama e sucumbir a uma incontrolvel crise de choro.
Que tola! Atirara-se sobre Clay como uma adolescente desesperada, e fora recusada. Ele simplesmente no a desejava. E, para piorar tudo, ainda a mandara embora.
Como pudera se envolver naquela confuso? Suspirando, finalmente encontrou foras para levantar e encarar-se no espelho.
Quem era aquela mulher que via no reflexo? Pouco mais de uma semana antes, era a confiante e reservada dra. Tiffany Avery, noiva de um dos mais renomados cirurgies do pas. Agora no passava de uma mulher emocionalmente destruda, que trocara um noivado estvel por um relacionamento sem o menor futuro.
O inesperado som da campainha interrompeu-lhe os pensamentos. Seria Clay? Rpida como um relmpago, saltou da cama e correu para atender.
Edward, parado na soleira, segurava um envelope em uma das mos. O desapontamento fez o peito dela contrair-se.
 Ol, Tiffany  o mdico cumprimentou friamente.  Posso entrar?
 J  tarde, Edward.
Ele consultou o relgio.
 So apenas nove e meia. Descobri algumas coisas que acho que voc deve saber. Informaes sobre seu novo namorado.
 Ele no  meu namorado.
 Ento voc no quer saber o que descobri?
 Certo. Pode entrar.
Depois de conduzir o antigo noivo at a sala de estar, ela indicou o sof, pedindo-lhe que se sentasse.
 Sabe  Edward comeou, depois de se acomodar , estive pensando muito desde que voc rompeu nosso noivado.
Tiffany limpou a garganta. No estava disposta a suportar os rodeios do mdico, e por isso foi direto ao assunto:
 Pensei que voc fosse me contar algo sobre Clay.
  verdade, mas eu tambm queria lhe dizer que sinto sua falta.
 Est tudo acabado entre ns. Sabe disso.
 No seja rude. Escute o que tenho a dizer, e ento talvez mude de idia.
Um suspiro escapou dos lbios dela. Tiffany jamais reataria aquele noivado, no importava o que pudesse descobrir.
Edward inclinou-se e abriu o envelope que carregava.
 Eu estava certo. J havia mesmo visto o sr. Barton antes.
 Oh...
 D uma olhadela nisso.  Apanhou um retrato e estendeu-o.
Aproximando-se da luminria, Tiffany examinou a foto em branco e preto. Nela aparecia um Clay bem mais jovem, de braos dados com a bela Nancy Freeborn, conhecida alpinista social que se casara recentemente com um milionrio trinta anos mais velho. A mulher era presena constante nos jantares aos quais ela e Edward costumavam comparecer.
 E da?  Tiffany encolheu os ombros.
 Como eu tinha imaginado, seu inventor maluco  na verdade o filho de Carlton Barton, o magnata do petrleo.  O mdico parecia sentir um prazer perverso ao contar as notcias.
Tiffany olhou para a foto outra vez, prestando mais ateno  aparncia de Clay. Ele vestia um terno Armani, caro o bastante para provocar cime em Edward, e um relgio de ouro. Seus cabelos estavam impecavelmente penteados e seus sapatos italianos brilhavam.
No havia sombra de dvida: o pobre e desmazelado inventor pelo qual se apaixonara era na verdade um multimilionrio.
A nusea tomou conta dela.
 Eu lhe disse  Edward disparou.  Barton est apenas brincando com voc.
Clay tinha mentido. Por qu? Ser que estivera apenas brincando com seus sentimentos, desejando lev-la para a cama?
Mas, se isso fosse verdade, por que no aproveitara a chance daquela noite?
 Barton sumiu da cena social alguns anos atrs  o mdico continuou.  Nega-se a aceitar o dinheiro da famlia, vivendo como um eremita para provar a si mesmo que  inventor. Esse rapaz  uma fraude. No  digno de sua ateno.
O sentimento de rejeio que ela experimentara antes transformou-se rapidamente em dio. Como Clay ousara engan-la daquele jeito?
 O que me diz?  Edward indagou.  O homem mentiu para voc. Seduziu-a, aproveitando um momento difcil de sua vida. Barton a usou. Encare isso.
Ela levantou-se.
 Obrigada por me contar, Edward.
 S isso?
 Sim.  Caminhou direto para a porta. O mdico seguiu-a com relutncia.
 Bem, se mudar de idia a nosso respeito, sabe onde me encontrar.
Tiffany forou um sorriso.
 Acho melhor voc no esperar por isso.
 Vai perdoar Barton depois do que ele fez? Por favor, no seja tola.
 Boa noite, Edward.  O ar frio da noite entrou pela porta aberta.
 Se  assim que prefere...  Ele ergueu o queixo e saiu, deixando Tiffany sozinha com uma raiva gigantesca e o corao partido.

Clay ficou sentado no carro por muito tempo, antes de criar coragem para ir at o apartamento de Tiffany. Finalmente respirou fundo e saltou, atravessando a rua com passos hesitantes. Seu corao batia como um tambor.
Ao chegar diante da porta, massageou a nunca, tentando diminuir os efeitos da ansiedade. S depois tocou a campainha.
Tiffany no respondeu de imediato. Por isso, ele tentou outra vez.
 Tiffany! Voc est em casa? Sou eu, Clay!
Um minuto se passou. Depois outro. Ele bateu outra vez.
 O que foi?  ela disparou, escancarando a porta abruptamente.  O que voc quer?
 Vim para me desculpar pelo que aconteceu no meu apartamento. Eu estava frustrado por causa do reciclador.
Tiffany limitou-se a cruzar os braos e encar-lo com um olhar furioso.
 Ah, ?
 Por favor  ele pediu, apreensivo.  Podemos conversar?
Enfim ela meneou a cabea, assentindo de forma quase imperceptvel. Em silncio, os dois se dirigiram para a sala de estar.
 Muito bem, o que h?
 Preciso lhe contar uma coisa. Algo que eu j devia ter dito h muito tempo. Nem sei por onde comear...
Tiffany apanhou a foto no bolso e estendeu a ele.
 Tem alguma coisa a ver com isso?
 Deixe-me explicar.
 Por favor. Sou toda ouvidos. 
Clay limpou a garganta.
 Eu no sou pobre.
 Isso  obvio.
 Vivo daquele jeito porque prefiro levar uma vida simples.
Os olhos azuis faiscavam.
 Por que mentiu para mim?
Apontando a foto, Clay deixou escapar um suspiro.
 Eu no queria que isso se repetisse.
  mesmo?
Ele s conseguia pensar nos momentos adorveis que tinha compartilhado com Tiffany e Molly. J no podia mais viver sem ela. Precisava convenc-la a perdo-lo.
 Nancy e eu fomos noivos  revelou.  Por pouco tempo.
 Continue.
 No demorou muito para que eu percebesse qual era o verdadeiro objetivo dela. Meu dinheiro, minha posio social. Acabei rompendo o noivado quando descobri que Nancy saa com outro homem... Para ser franco, ela no foi a nica mulher que se aproximou de mim por interesse.
Tiffany continuou a encar-lo.
 E da?
Ele respirou profundamente.
 Da que, depois disso, decidi viver sozinho e trabalhar no reciclador. Por quatro anos o trabalho transformou-se em meu nico objetivo.
 Isso no  desculpa para sua mentira. Eu lhe contei tudo sobre meu relacionamento com Edward, minha infncia, meus sonhos. Mas voc nunca fez o mesmo. Manteve seu passado em segredo, e eu gostaria de saber por que.
 Na primeira vez que a vi, pensei que fosse como Nancy Freeborn. Parecia uma caadora de fortunas.
 Escute, Clay Barton, nunca corri atrs de voc. Foi voc quem me procurou no consultrio. Foi voc quem pediu para que eu ficasse em seu apartamento, para ajudar a cuidar da Molly. A idia foi sua desde o comeo.
Ele abaixou a cabea.
 Bem, admito isso. Mas logo percebi que voc no se parecia com Nancy. Por isso, tentei conhec-la melhor.
Houve uma pequena pausa.
 Ainda no consigo entender por que mentiu para mim.
 Voc teria concordado em passar a noite em meu apartamento se soubesse que eu podia contratar uma bab?
 No.
 Est vendo?
 Mesmo assim, voc podia ter contado tudo depois.
 No queria correr o risco de deix-la irritada e perd-la. Na verdade, estava decidido a contar tudo assim que patenteasse o reciclador. Queria que voc notasse que sou capaz de me cuidar sozinho, sem recorrer ao dinheiro de minha famlia.
Pronto. Ele finalmente confessara toda a verdade.
 E ento voc me envolveu numa farsa para me iludir.
 Eu no colocaria as coisas desse jeito.
 Seu nico propsito foi me levar para a cama, no  verdade?
 Comeou desse jeito, mas, quando a conheci melhor, minhas intenes mudaram.  Clay deu um passo para a frente.
 Por favor  Tiffany sibilou , no toque em mim.
 Eu sinto muito.
  melhor voc ir embora.  Ela caminhou at a porta e a abriu.
Clay encarou-a, exasperado.
 Posso ligar para voc amanh?
 Acho melhor no.
 Entendo como se sente, Tiffany. Est zangada. Mas pense nisso hoje  noite. D-nos uma nova chance.
 Sinto muito. Eu simplesmente no posso me envolver com um homem no qual no confio.
Ele cerrou os punhos.
 Farei qualquer coisa para provar o contrrio.
  tarde demais para isso.
 Eu nunca quis magoar voc. Se pudesse mudar o passado, faria tudo muito diferente.
Ento um terrvel pensamento lhe ocorreu. E se Tiffany reatasse o noivado com Edward? Limpou a garganta, mas exatamente no momento em que ia dizer quanto a amava, a insidiosa possibilidade do retorno do mdico  vida dela invadiu sua mente.
A mo de Tiffany continuava no batente. Era inacreditvel, mas ela conseguira manter a compostura, embora seu corpo tremesse. Clay a manipulara com mentiras, mas no tirara vantagem dela. E tinha bons motivos para desconfiar das mulheres.
 Pedi seu perdo.  Clay agora estava parado ao lado da porta, com as mos nos bolsos e a cabea baixa.
 No  to fcil assim.
 Sabe que se eu sair por essa porta nunca mais vou voltar.
Ela chegou a abrir os lbios para dizer que o perdoava, mas anos de vida emocional reservada fizeram as palavras morrer em sua garganta. Clay continuou parado, com uma expresso inescrutvel.
 Bem?
 Ahn... eu...
 Certo, ento. Acho que isso diz tudo.  Ele lhe lanou um olhar magoado e depois saiu rapidamente.
Tiffany ficou parada por alguns instantes. Vamos l, sua tola, no o deixe ir embora assim!, uma voz interior lhe dizia.
 Clay!  ela finalmente gritou, correndo atrs dele. Desceu a escada correndo, pois o elevador j partira, e estava nos degraus do hall quando ouviu o motor do carro ser ligado.
Tarde demais. Antes que chegasse  rua, Clay j sara em disparada. Com o corao apertado, Tiffany viu o veculo se afastar.
 Eu o perdo  ela balbuciou.  Por favor, me desculpe tambm.

Dois meses se passaram.
Depois daquela noite terrvel no apartamento de Tiffany, Clay decidiu que no voltaria a procur-la enquanto no reestruturasse a prpria vida. Por isso, comeou a trabalhar de maneira febril. A mdica no saa de seus pensamentos nem por um minuto.
Tanto trabalho resultou em uma nova inveno: trancas  prova de bebs. Diferentes das que existiam no mercado, permitiam fcil acesso dos adultos aos armrios da casa, mas impediam que crianas agitadas como a pequena Molly se metessem em problemas.
Dessa vez no foi difcil obter a patente, e em seguida ele comeou a produzir a inveno em srie, levando-a para as lojas. As vendas eram timas, mais de dez mil unidades em menos de um ms, o que o levou a pensar em investir seu tempo na criao de uma srie completa de utenslios especiais para segurana infantil. Pouco tempo depois, abriu uma empresa chamada Bebs & Cia.
Agora, j podia dizer que tinha algo a oferecer a Tiffany...
Naquela tarde de segunda-feira, decidiu v-la.
 Algum quer falar com voc  Lilly anunciou, entrando no consultrio.
Tiffany ergueu a cabea dos papis que lia. Sentia-se exausta. J fazia dois meses que no via Clay, e no entanto ele no deixava de dominar seus pensamentos. Quanto tempo seria necessrio para esquec-lo? At quando seria preciso sofrer?
Passara muitas vezes diante do apartamento dele, tentando reunir coragem para entrar. Mas no seria capaz de encar-lo. Quando Clay precisara de seu perdo, Tiffany agira como uma covarde, preocupando-se apenas com os prprios sentimentos, negando-se a viver aquele que prometia ser um grande amor.
O dinheiro que recebera da me no ajudara nem um pouco nesse aspecto. Claro que Tiffany pudera pagar todas as contas, contratar uma enfermeira e comprar novos equipamentos para o consultrio. Mas, no ntimo, nunca se sentira to insegura, nem mesmo quando tivera que conviver com a pobreza na infncia.
 Eu disse  Lilly repetiu , que dois amigos seus a esperam na recepo.
 Quem?  Tiffany suspirou, ajeitando os cabelos atrs da orelha.  No tenho tempo para charadas.
 Vou mand-los entrar  Lilly murmurou, saindo sem maiores explicaes. A adolescente j no suportava mais o mau humor dirio da chefe.
Deixando escapar um suspiro, Tiffany empurrou a cadeira para trs e se levantou. Quem poderia ser? No tinha vontade de receber nenhuma visita social.
A porta se abriu. Um beb chorou. Tiffany ento ficou paralisada, completamente dominada pelo olhar intenso de Clay.
Sua aparncia era ainda mais mscula. Molly estava em seu colo, linda como uma princesa. Os cabelos da menina haviam crescido bastante desde a ltima vez que a vira.
 Oi!  Molly exclamou, batendo palmas com entusiasmo.
 Ela j comeou a falar  Clay informou em voz baixa, sem tirar os olhos do rosto de Tiffany.
 Clay...  Tiffany sussurrou, comeando a tremer.  O que est fazendo aqui?
 Bem...  Ele tirou algo dos bolsos e lhe entregou.
 So trancas  prova de bebs. Eu as inventei. Na verdade, abri uma empresa especializada em segurana infantil, e tudo est indo muito bem. Pensei que voc talvez no se importasse se eu deixasse alguns catlogos promocionais em sua sala de espera...
Tiffany examinou a embalagem que tinha nas mos. Ento era aquilo? Clay s fora a seu consultrio para promover seu novo produto? Sentiu um forte desapontamento. Mas o que poderia esperar, depois de dois meses? Uma declarao de amor apaixonada?
 Claro  ela murmurou, tentando parecer casual.  Isso no ser nenhum problema.
 Cho!  Molly gritou, querendo explorar o territrio. Clay a atendeu e s ento voltou a encarar a mdica.
 Isso  tudo o que queria?  ela perguntou em voz baixa.
Ele deu um passo em sua direo. Tiffany moveu-se para trs. Os olhares de ambos permaneceram fixos. Em seguida, Clay enfiou as mos nos bolsos do jeans surrado, ao mesmo tempo em que a mdica cruzava os braos diante do peito.
 Desde que a vi sempre quis muito mais  ele respondeu, numa voz grave e rouca.  Ser que ainda no percebeu isso?
 Voc ficou longe por dois meses  ela sussurrou, lutando desesperadamente contra as lgrimas que teimavam em se insinuar em seus olhos.
 Voc me mandou embora, lembra? Nunca fui muito bom para expressar meus sentimentos. Sempre fui melhor consertando coisas...
 Eu estava errada. Devia ter acreditado em voc.
 No, querida, a culpa foi minha. Eu nunca deveria ter mentido. O amor no pode suportar esse tipo de coisa.
Amor? Ser que Tiffany ouvira direito? Clay a amava?
 Est querendo me dizer que nosso relacionamento ainda pode dar certo?  ela murmurou, ansiosa.
 No se ficarmos apenas falando.
Clay deu outro passo. E daquela vez ela no se afastou. J no sentia mais medo.
Segurando-a pelas mos, Clay tomou-a num abrao, to apertado que os corpos dos dois quase se tornaram um s. O contato era quente e incrivelmente agradvel.
O olhar de Clay fixou-se no dela com uma intensidade impressionante, como se desejasse expressar tudo o que sentia naquele momento. Ento ele inclinou a cabea devagar, e seus lbios cobriram os de Tiffany.
Uma onda de prazer percorreu todo o corpo feminino. Ela descobriu naquele instante que era nos braos de Clay que desejava passar o resto da vida.
O beijo continuou, vido e desesperado. O desejo misturava-se ao alvio. O brilho nos olhos de ambos era inacreditvel.
 Prometo que vou cuidar de voc, querida. Todos os dias de minha vida.
 O que est dizendo?  Ela sorriu, sentindo o corao acelerar-se e a felicidade insinuar-se por sua alma.
 Case comigo. Seja minha mulher. Me de meus filhos.
 Oh, Clay!  Ela suspirou, passando as mos em torno do pescoo largo.  Por que demorou tanto para pedir?
 Precisava provar a mim mesmo de que seria um bom marido e um bom pai. Esse era meu desafio.
 Sempre acreditei em voc. Foi apenas minha teimosia que nos manteve separados. Sinto muito pelo sofrimento que lhe causei...
 Fique quieta  ele sussurrou, beijando-a levemente na testa.  Agora estamos juntos, e isso  tudo o que importa.
 Mas perdemos dois meses preciosos!
Um sorriso amplo surgiu nos lbios de Clay, que estreitou o abrao.
 Acho melhor comearmos a recuperar o tempo perdido, concorda?
 Eu o amo  Tiffany anunciou, falando em voz alta, pela primeira vez, as palavras que guardara dentro do peito desde que o conhecera.
 E eu a amo, dra. Avery. Que acha de voltarmos a meu apartamento e repetir aquele cenrio que voc criou para me receber quando fui registrar o reciclador? Mal posso acreditar que fui tolo o bastante para deix-la ir embora.
Tiffany corou.
 E eu no acredito que fui tola o bastante para mand-lo embora de minha casa.
 Ah, voc no voltou a se envolver com o dr. Bennet, no ?  Clay perguntou subitamente, uma nuvem de preocupao turvando-lhe o olhar.
 Oh, no! Depois que conheci voc, jamais poderia amar algum como Edward.
 timo!  assim que gosto de minha mulher. Agora acho que devamos providenciar logo nossa festa de reconciliao...
Uma risada infantil chamou a ateno dos dois. Molly sorria e segurava nas mos um livro mdico que apanhara na estante.
 No sei, Clay Barton, mas uma festa como essa pode acabar resultando num beb  Tiffany considerou, rindo.  Ser que estamos preparados para isso?
 Como no, querida? No lhe contei as novidades? Bebs so meu principal negcio.
E, ao dizer aquilo, beijou-a outra vez. Para no deixar dvidas sobre o que acabara de dizer.



FIMDICAS




O STIMO MS


Desenvolvimento motor e psicolgico

Agora o beb rola o corpo e senta sem apoio. Tenta segurar quando sua mo  segurada. Fica em p no colo dos adultos e faz esforo para engatinhar. Rasga papel com as duas mos. Acompanha com os olhos, inclinando-se, os objetos que caem. Quando deitado de costas, levanta a cabea e, sentado, inclina-se para a frente para alcanar determinado objeto. Gira sem dificuldade da posio de costas para a de bruos. Usa seus dedos para empurrar ou rolar objetos. Gosta de brinquedos que faam barulho. Neste perodo, o beb espera pelo passeio dirio e explora com ateno tudo o que v. Consegue fixar ateno em mais de uma pessoa. Comea a engatinhar ou arrastar-se pelo cho.

Alimentao

A partir deste ms, a sopa do beb ser apenas amassada com o garfo e nunca passada na peneira, nem batida no liqidificador. A carne tambm comea a ser desfiada bem fina e misturada  sopa. Ela j recebe legumes e um cereal. Veja a receita bsica a seguir.
As sopas e os purs de legumes, de mandioquinha, ou batata-doce podem ser acrescidas de uma colher (sopa) de queijo tipo minas ralado em ralo fino, ou 2 colheres (sopa) de carne bovina moda ou de frango bem desfiada. A gema de ovo continua sendo usada pelo menos trs vezes por semana. Um ou dois biscoitos de gua, uma torrada, um pedao grande de carne podem ser oferecidos antes ou aps a refeio, pois aliviam a necessidade que o beb tem de cocar as gengivas.
O esquema alimentar tambm  modificado neste ms: pela manh, papa de fruta ou leite acrescido de creme de arroz ou outra farinha, de preferncia dado s colheradas; s 10 horas, sopa (ou pur de legumes); s 14 horas, mingau; s 18 horas, pur de legumes (ou sopa); leite acrescido de alguma farinha tambm pode ser oferecido, alm de uma fruta fresca como pra ou ma, descascada e cortada em pedaos grandes, que so dados para o beb poder segurar; e a mamadeira por volta das 22 horas.
Nota: Alimentar o beb nos intervalos entre as refeies porque ele comeu pouco em uma delas  desaconselhvel.  provvel que, se no receber alimentos nos intervalos, a criana tenha mais fome na prxima refeio.

Sopa enriquecida
2 colheres (sopa) de arroz em gro
100 g de carne
1 cenoura pequena, chuchu ou mandioquinha
gua suficiente para cozinhar
Junte todos os ingredientes numa panelinha e cozinhe em fogo brando at que tudo esteja macio. Passe para um prato e amasse bem com o garfo. Deixe esfriar para oferecer ao beb.

Choro

O choro nesta fase  quase sempre motivado pelo surgimento dos dentes. Mas ele tambm j sabe chorar para demonstrar clera e manifestar que est aborrecido ou contrariado.

Cuidados para evitar acidentes

Agora que a criana comea a engatinhar  preciso retirar todo tipo de objeto que possa oferecer riscos para ela, como vasos, enfeites, objetos de loua e guard-los fora de seu alcance.

Notas gerais

Se aparecerem pedaos de alimentos nas fezes da criana, volta-se a peneirar a sopa por mais algumas semanas antes de voltar a apenas amassar os alimentos com o garfo.
Comece o treino para que a criana use o copo, mas ela no conseguir fazer uso dele antes de 9-10 meses, por isso a me deve segurar o copo para que ela possa beber. Se a criana tentar segurar o copo, deve-se ter um vazio (e inquebrvel)  mo e permitir que ela o manuseie  vontade.
Uma cenoura pequena oferecida descascada e bem lavada pode ser oferecida para o beb, assim como meia banana nanica, pedaos grandes de ma ou pra. A criana aprecia manusear o alimento antes de lev-lo  boca.
E nesta fase que o beb comea a se apegar a determinados brinquedos, ou a um objeto qualquer como cobertor, lenol, travesseiro. Esse apego  uma demonstrao fsica do momento psicolgico que o beb vem passando.  que a criana est saindo da fase da dependncia total da me para a independncia parcial e o apego a um objeto serve de consolo e apoio nessa fase. E comum esse perodo prolongar-se at aos dois anos.

O sono do beb

Idade: 6o ao 11o ms
Diurno: Trs perodos de 1 ou 2 horas
Noturno: 10-12 horas

O desenvolvimento do beb

 
7o MS COMPLETO	MENINOS	MENINAS	    
Peso	8 Kg	7,7 kg	   
Estatura	66 cm	65 cm	   
Permetro ceflico	44 cm	43 cm	   
Permetro torxico	44 cm	43 cm	   
Aumento Mensal de Peso	450 g	450 g	 
Nota: Estes valores podem apresentar variaes.

Dentio

Nascem dois dentes incisivos medianos inferiores.



O OITAVO MS


Desenvolvimento motor e psicolgico

Durante os primeiros meses de vida, o beb acredita que forma uma s pessoa com sua me. E  por volta do oitavo ms que ele comea a se conscientizar de sua individidualidade. Essa constatao costuma deixar as crianas bastante ansiosas e faz com que elas estranhem as pessoas. Por isso o beb comea a chorar quando vai para o colo de uma visita, coisa que no fazia antes.
Sua coordenao motora vai se aperfeioando. Sentado, inclina-se para a frente e recobra a posio anterior sem ajuda dos braos. Consegue tambm segurar dois brinquedos ao mesmo tempo e soltar apenas um deles para apanhar um terceiro. Fica em p quando seguram suas mos. Sentado, vira-se em todas as direes. Comea a mover o polegar em contraponto aos outros dedos da mo, o que lhe possibilita segurar objetos com os dedos e no mais com a mo inteira. Comeam tambm a aparecer as primeiras manifestaes de fria, como quando ele  deixado no quarto ou a me retira de suas mos algum objeto que ele deseja explorar.

Alimentao

No oitavo ms, o beb j mostra capacidade de mastigar alimentos slidos e seu cardpio deve passar por mais algumas mudanas: a sopa pode ser enriquecida com massas; as mais indicadas so as preparadas  base de ovos e de apresentao delicada, como o macarro cabelo-de-anjo. As crianas tambm apreciam comer batata-doce ou inglesa assada com casca, depois descascada e dada s colheradas. O caldo de feijo, cozido apenas em gua e coado, tambm pode passar a ser introduzido nas sopas e purs. O sal  outro elemento que deve aos poucos comear a ser introduzido nas refeies, mas em pequenas quantidades. O esquema alimentar segue critrios do stimo ms, mas  hora da introduo da sobremesa na refeio. As mais indicadas so as frutas frescas, sem adio de acar (lembre-se de que morango e abacaxi podem provocar urticrias); pssego e pra em calda; queijo branco ou requeijo, esmagado junto com um pedao de fruta em calda costuma agradar s crianas. As gelatinas tambm so excelentes sobremesas, mas devem receber pouco acar em seu preparo.
Nota:  preciso ateno na hora de comprar queijos. Verificar sempre a data de validade e o aspecto da embalagem, assim como se no h presena de mofo ou impurezas no queijo. Jamais oferecer  criana um produto de qualidade duvidosa. Em casa, o queijo deve ficar na geladeira.

Cuidados para evitar acidentes

Agora que a criana j fica de p apoiando-se nos mveis, deve-se verificar se h algum que no suporta seu peso e pode cair sobre ela. Outro ponto que deve ser testado  se as cortinas esto firmemente presas, para no despencarem sobre a criana.

Nota geral

O beb j pode ser colocado no andador, quando aceitar bem esse acessrio, mas isso s pode acontecer durante uns dois meses. Apesar do que se diz a respeito, o andador no faz a criana andar mais rpido, apenas funciona como um exerccio que lhe fortalece a musculatura das pernas. Muitos especialistas so contra seu uso, rebatendo que engatinhar ou mesmo se arrastar so movimentaes muito mais benficas, pois nelas a criana se movimenta por si mesma. De qualquer forma, quando est no andador, o beb deve permanecer sob cuidado constante, pois elas podem vir-lo a qualquer momento, uma vez que ainda no tm nenhum equilbrio para manobr-lo.

O sono do beb

Idade: 6o ao 11o ms
Diurno: Trs perodos de 1 ou 2 horas
Noturno: 10-12 horas

O Desenvolvimento do Beb

 
8o Ms Completo	MENINOS	MENINAS	   
Peso	8,4 kg	8,2 kg	   
Estatura 	68 cm	67 cm	   
Permetro ceflico	44,5 cm	43,5 cm	   
Permetro torxico	44,5 cm		   
Aumento mensal do peso	450 g	450 g	 
Nota: Estes valores podem apresentar variaes.
Dentio

So 4 os dentes: 2 incisivos medianos inferiores e 2 incisivos medianos superiores.



O NONO MS


Desenvolvimento motor e psicolgico

Nesta etapa, o beb repete slabas como d, m, p, preparando-se para pronunciar as primeiras palavras. Presta ateno quando falam com ele. A partir de agora, ele se interessa por detalhes, apanha e observa objetos pequenos como pedrinhas, botes ou gros de feijo. Tira brinquedos de caixas. Ultrapassa obstculos para alcanar objetos que chamaram sua ateno. Procura um brinquedo que foi escondido na frente dele. Tantas descobertas e atividades podem fazer com que ele fique agitado e custe a dormir, ou passe a acordar de madrugada. A brincadeira preferida dessa fase  jogar as coisas ao cho e observ-las cair. O beb faz isso porque est adquirindo a noo de em cima e embaixo e, embora possa ser irritante para algumas pessoas, os adultos devem ter pacincia devolvendo os objetos para o beb.

Alimentao

Agora o beb passa a receber alimentao ainda mais slida, e parecida com a dos adultos: a comida no deve mais ser misturada. A sopa pode ser substituda por uma poro de arroz bem cozido, acrescida de legumes cozidos e amassados ligeiramente, ou um pur. Pode-se adicionar um pouco de caldo de feijo. A carne ainda precisa ser moda ou desfiada, entretanto,  possvel substitu-la por miolo bovino, que  rico em sais minerais, fsforo, protenas e um excelente complemento alimentar. Para o preparo do miolo, deve-se lav-lo em gua corrente muito bem e cozinh-lo em gua com uma pitada de sal por alguns minutos, eliminar a pele, esmagar com o garfo e acrescentar metade de um miolo  comida.
Outro alimento muito nutritivo que pode ser agregado  alimentao infantil  o peixe. Os melhores so os do mar e de grande porte, para evitar o perigo dos espinhos. A carne ser cozida em gua e amassada antes de ir para o prato do beb. So contra-indicados os peixes salgados e as sardinhas. O esquema alimentar segue o do stimo ms. Agora, o liqidificador deve ser usado apenas para as vitaminas. E se a criana foi amamentada no seio, este  o momento certo para ser desmamada.


Alimentos de primeira qualidade

Como os alimentos que esto sendo incorporados  dieta do beb so muito perecveis,  preciso tomar certos cuidados na hora de compr-los, pois vsceras bovinas ou peixes tm de estar sempre muito frescos. Adquiri-los em estabelecimentos com grande rotatividade de produtos, como supermercados e casas especializadas em carne  sempre uma garantia de qualidade. No caso dos peixes, ainda,  necessrio verificar: o cheiro; o aspecto dos olhos, que devem estar brilhantes, trgidos e transparentes; se as guelras apresentam-se vermelhas; se a carne tem a consistncia firme; e se a barriga no tem afundamentos.

Cuidados para evitar acidentes

O pequeno explorador agora passa a examinar cada canto da casa e as tomadas costumam atra-lo. Para evitar choques,  preciso cobrir as tomadas com tampas plsticas de encaixe que so encontradas nas boas lojas de ferragens.

Notas gerais sobre o beb:

Para no oferecer riscos, o cadeiro deve ter trava ou cinto de segurana e agentar o peso de um adulto, bandeja inquebrvel e sem enfeites, ps bem separados e com traves, alm de apoio regulvel e de plstico para os ps do beb.

O sono do beb

Idade: 6a ao 11o ms
Diurno: Trs perodos de 1 ou 2 horas
Noturno: 10-12 horas

O desenvolvimento do beb

 
9o Ms Completo	MENINOS	MENINAS	   
Peso	8,9 kg	8,6 kg	   
Estatura	69 cm	68 cm	   
Permetro ceflico	45 cm	44 cm	   
Permetro torxico	45 cm	44 cm	   
Aumento mensal do peso   	450 g	450 g	 
Nota: Estes valores podem apresentar variaes

Vacinao do ms: 

Sarampo



Dentio

6 dentes: 2 incisivos medianos inferiores, 2 incisivos medianos superiores e 2 incisivos superiores laterais.



O DCIMO MS


Desenvolvimento motor e psicolgico

Nesta fase o beb comea a engatinhar. Muitos j caminham apoiando-se nos mveis e devem ser estimulados a tentar se locomover dessa maneira, mas sem ajuda. Agora que o beb consegue se locomover com facilidade, costuma tentar seguir os adultos por toda a parte e no pra um minuto. Fica irritado quando cai, mas os pais no devem superproteger a criana, permitindo que fique de p com os prprios meios. Comea tambm a se interessar por fotos, desenhos e figuras. Livros de panos, que a criana pode manusear sozinha, so timos presentes. Alguns j conseguem pronunciar palavras como mama e pap, enquanto outros ainda se manifestam por gestos e balbucios.
Neste perodo, o beb aprende a apertar bichinhos de pelcia ou bonecos de borracha para ouvir os sons que fazem. Imita as pessoas, acena a mo para se despedir e acha engraado piscar os olhos. Chama a ateno dos pais e irmos sobre sua presena e repete as gracinhas que faz se receber aprovao e risos.

Alimentao

A alimentao segue a do 9o ms, mas os horrios devem ser modificados assim como a forma das refeies (veja cardpios a seguir).
Agora a criana pode receber pudins  base de leite ou abacate como sobremesa. Alis, essa fruta contm 11 vitaminas e 17 sais minerais e oferece quatro vezes mais nutrientes que as demais frutas. O presunto  outro alimento que pode passar a fazer parte das refeies. Para prepar-lo, basta eliminar a faixa de gordura e cozinhar em gua sem sal. A proporo usada  a mesma da carne: 2 a 3 colheres (sopa) de presunto desfiado fino. Essa  a nica forma em que a carne de porco pode ser dada  criana.
A observao de reaes adversas a alimentos novos deve ser a mesma empregada para os demais.
As azeitonas tambm podem ser acrescentadas s refeies, uma vez por semana. Lavadas em gua corrente, descaroadas e cortadas em pedaos, enfeitam purs e do sabor s sopas. Mas sempre em pores pequenas.


SUGESTO DE CARDPIO

 Desjejum
(6-7 horas)
Mingau de farinha de aveia

Almoo
(10-11 horas)
2 colheres de pur de ervilha
colheres de arroz
colheres de caldo de feijo
2 colheres de carne de frango desfiada
1 gema bem cozida
Pudim de leite

Lanche
(14-15 horas)
Gelatina e frutas frescas
(no repetir as frutas servidas no desjejum)

Jantar
(18-19 horas) 
Sopa de legumes
2 torradas
Compota de pssego amassada com ricota ou queijo branco

Para bebs que sentem fome aps o jantar, o leite morno, oferecido em copo, deve ser mantido.

Cuidados para evitar acidentes

Os brinquedos, que j fazem parte da rotina do beb, podem ser fonte de acidentes quando no escolhidos com critrio. Os brinquedos apropriados para esta fase so grandes, sem pontas ou arestas e fortes o suficiente para no serem quebrados. Os que apresentam apndices com bolinhas coloridas, peas que desencaixam ou soltam com facilidade e os que tm adesivos, no so aconselhveis por enquanto.

Notas gerais

Os alimentos novos devem ser introduzidos gradual e individualmente, sempre na refeio em que o beb tem mais fome.
Usar os talheres e prato habitual, que o beb reconhece, no dia em que o beb ir receber um alimento novo.
Permitir que a criana utilize as mos para se alimentar, entre uma colherada de comida e outra, incentiva o prazer de comer. Deve-se deixar que ela segure uma colher e faa tentativas de levar o alimento  boca, embora a me ir continuar dando a refeio.
Algumas crianas tm alergia aos corantes dos alimentos. Se isso ocorrer, ser necessrio trocar as gelatinas coloridas pelas incolores, apresentadas em p ou em folhas; nesse caso, tambm o macarro mais claro ser melhor para o beb, pois os escuros devem ter corantes.

O sono do beb

Idade: 6o ao 11o ms
Diurno: Trs perodos de 1 ou 2 horas
Noturno: 10-12 horas

O desenvolvimento do beb

 
10o Ms Completo	MENINOS	MENINAS	   
Peso	9,3 kg	9,1 kg	   
Estatura	71 cm	70 cm	   
Permetro ceflico	45,5 cm	44,5 cm	   
Permetro torxico	45,5 cm	44,5 cm	   
Aumento mensal de peso	300 g	300 g	 
Nota: Estes valores podem apresentar variaes.

Dentio

Oito dentes: sendo 2 incisivos medianos inferiores e 2 superiores; 2 incisivos laterais superiores e 2 inferiores.



O DCIMO PRIMEIRO MS


Desenvolvimento motor e psicolgico

O beb consegue sentar sem ajuda e sobe e desce dos mveis com relativa habilidade. Deitado de braos, consegue sentar. Permanece sentado sem ajuda e vira as pginas de um livro ou revista sem dificuldade. Consegue abrir gavetas para explorar seu contedo. A msica comea a despertar seu interesse e algumas crianas se movem ao ritmo da melodia, balanando o corpo e fazendo trejeitos. Bater palmas  outra descoberta que o beb faz neste perodo.
A criana comea tambm a ter noo do que  proibido ou permitido e, embora desafie a me algumas vezes, costuma repetir atitudes que so incentivadas pelos adultos. Se a criana tiver um acesso de raiva porque a me lhe proibiu alguma coisa que considera perigosa, o melhor  deix-la chorar at a raiva passar, mas nunca se deve voltar atrs na proibio para que a criana pare de fazer manha. O beb comea a se soltar: permanece alguns minutos afastado da me desde que possa v-la de longe.

Alimentao

A alimentao segue o esquema do ms anterior. As refeies podem ser um pouco maiores, assim como o desjejum. Nem sempre o beb tem o mesmo apetite. No force a criana a comer o que ela no quer. Muitas crianas, ao se levantar, no sentem fome. Uma forma de incentivar o apetite das crianas  dar-lhes um pouco de suco de laranja (puro, sem acar) e esperar de 20 a 30 minutos para oferecer-lhe o restante do caf da manh.
A partir deste ms, muitas variaes podem ser incorporadas  alimentao bsica do beb. Veja a seguir algumas sugestes de cardpio, que em geral so muito bem aceitas.

O sono do beb

Idade: 6o ao 11o ms
Diurno: trs perodos de 1 ou 2 horas
Noturno: 10-12 horas

O desenvolvimento do beb

 
11o Ms Completo	MENINOS	MENINAS	   
Peso	9,6 kg	9,4 kg	   
Estatura	73 cm	72 cm	   
Permetro ceflico	46 cm	45 cm	   
Permetro torxico	46 cm	46 cm	   
Aumento mensal de peso	300 g	300 g	 
Nota: Estes valores podem apresentar variaes


CARDPIO I

Desjejum
(6-7 horas)
Queijo branco ou requeijo esmagado e adoado com mel
Biscoitos maisena esmigalhados
Leite ou suco de laranja no copo

Almoo
(10-11 horas)
3 colheres (sopa) de arroz
3 colheres (sopa) de caldo de feijo
2 colheres (sopa) de carne bovina moda
2 colheres (sopa) de legumes variados
(beterraba, chuchu e abobrinha) picados 2 colheres (sopa) de pur de batata-doce

Lanche
(14-15 horas)
Leite batido com fruta, com o mnimo
acar possvel ou biscoitos de araruta e suco de laranja-lima

Jantar
(18-19 horas)
Sopa de letrinhas com legumes ou verduras
(espinafre, batata, agrio) Miolo bovino cozido e esmagado Pur de ma assada com um pouco de mel


CARDPIO II

Desjejum
(6-7 horas)
Mingau de fub ou banana amassada com
farinha de aveia ou mel Leite ou suco de laranja no copo

Almoo
(10-11 horas)
3 colheres (sopa) de arroz
3 colheres (sopa) de caldo de feijo
Fgado de galinha
Pudim de laranja

Lanche
(18-19 horas) 
Leite e biscoitos ou gelatina de laranja com ma crua picada

Jantar
(18-19 horas)
Sopa de cenoura, chuchu, carne de frango e
macarro cabelo de anjo Torradas Compota de fruta ou fruta fresca picada


RECEITAS




Musse de abacate

112 pacote de gelatina de limo 
1/2 lata de leite condensado 
1 abacate mdio
Prepare a gelatina de acordo com as instrues da embalagem e deixe esfriar. Depois, bata o leite condensado e o abacate no liqidificador. Adicione a gelatina preparada e torne a bater at misturar bem. Distribua em forminhas e leve  geladeira. Tire pelo menos 20 minutos antes de servir.


Mingau de banana

1 colher (sopa) de maisena 
1 colher (sopa) rasa de acar 
1 xcara de leite 
1 gema batida
colher (sobremesa) rasa de margarina
bananas nanicas
Misture a maisena com o acar, junte o leite e leve ao fogo brando, mexendo sempre at engrossar. Retire do fogo, coloque algumas colheradas sobre a gema batida  e misture. Despeje essa mistura na panela com o mingau e leve novamente ao fogo. Cozinhe por mais alguns minutos, mexendo sempre. Retire do fogo e adicione a margarina e as bananas amassadas, misturando bem. Deixe esfriar para oferecer ao beb.


Flan de laranja

4 folhas de gelatina incolor
1/2 lata de leite condensado
a mesma medida de suco de laranja
Coloque as folhas de gelatina de molho em um pouco de gua fria e deixe por uns 5 minutos. Depois escorra e dissolva-as em 3 colheres (sopa) de gua fervente. Acrescente o leite condensado e o suco de laranja, misturando bem. Despeje numa forma ligeiramente untada com leo. Deixe na geladeira por no mnimo quatro horas. Retire 20 minutos antes de servir.



Creme de ricota com kiwi

100 g de kiwi descascado e picado em pedaos
3 colheres (sopa) rasas de acar 
125 g de ricota
4 colheres (sopa) de leite fervido e frio 
1 gema
gotas de essncia de baunilha
Adoce o kiwi com 1 colher (sopa) de acar e coloque numa vasilha tampada. Bata a ricota junto com o leite, a gema, o restante do acar e a baunilha no liqidificador. Acrescente o kiwi e bata mais um pouco. Sirva em seguida.
Variao: substitua o kiwi por polpa de fruta-do-conde. Neste caso, no  necessrio bater a fruta, basta misturar.


Notas gerais

Por ingerir alimentos com alta taxa de caroteno constantemente, como beterraba, cenoura e abbora, algumas crianas podem apresentar as plantas do ps e das mos amareladas.
As vitaminas de leite e frutas devem ser feitas usando-se apenas um tipo de fruta de cada vez.
Sempre que a criana eliminar vestgios de determinado alimento nas fezes,  sinal de que ele ainda no tem maturidade para digeri-lo. Ele deve ser ainda retirado do cardpio e incorporado apenas um ms depois.
Somente um alimento novo deve ser includo a cada semana.
O vero exige cautela redobrada para se fazer qualquer mudana ou incluso na alimentao do beb.

Animais de estimao

O ideal  que a criana complete trs anos para iniciar um contato direto e constante com animais. Entretanto, se j existe algum animal na casa, basta cuidar com muita ateno da higiene, vacinao e profilaxia do animal, pois assim, grande parte dos riscos de transmisso de doenas, bem como de a criana ser ferida ou assustada, so eliminados.

Regras para higiene e convvio com os animais de estimao

Todos devem lavar as mos depois de ter contato com animais, sejam adultos (principalmente se vo cuidar da criana em seguida) ou crianas.
A qualquer sinal de doena como diarria, tosse ou olhos tristes, o animal deve ser separado das crianas imediatamente.
Explicar para as crianas que no devem deixar que o co ou o gato lambam seu rosto, pois a saliva deles pode transmitir vermes e outros parasitas que causam doenas.
Ministrar vermfugos a ces e gatos duas vezes por ano  indispensvel, ou cuidar da sua sade de acordo com as prescries do veterinrio.
Os animais no devem ingerir carne crua ou caar ratos e camundongos, para evitar contaminaes.
A criana deve ser impedida de chegar perto dos animais quando estes estejam comendo.
No permita que as crianas fiquem sozinhas brincando com os animais.
Os ces, podem transmitir ttano, raiva, dermatite de pele causada por vermes, sarna e parasitas como pulgas e piolhos.
Os gatos, alm da toxoplasmose, tambm podem transmitir a raiva e parasitas de pele.
As fezes das aves em geral transmitem, uma forma de pneumonia.

Cuidados para evitar acidentes

Essa  uma fase em que as crianas costumam ferir-se nas portas e gavetas, onde prendem dedos e mos. Esse tipo de acidente s  evitado quando se mantm as portas travadas ou caladas e no permitindo que fiquem sozinhas onde h armrios ou cmodas que fiquem acessveis s mozinhas xeretas.











LAURA ANTHONY comeou a escrever com oito anos de idade. Segundo ela, seu pai, Fred Blalock, merece o crdito por haver lhe incentivado a seguir a carreira. Embora seja enfermeira formada, Laura conseguiu alcanar o sonho de sua vida e agora trabalha em tempo integral como escritora de fico. Seus hobbies prediletos so correr, passear de barco, viajar e ler vorazmente.
